Há algo de silenciosamente perturbador quando o Estado, investido da responsabilidade de cuidar, educar e julgar, começa a tratar crença como se fosse conhecimento, não no âmbito privado, onde a fé encontra seu lugar legítimo, mas no domínio público, onde a decisão deveria repousar sobre critérios minimamente verificáveis.
O problema não está na existência da crença.
Nunca esteve.
O problema começa quando o Estado, ao tentar ser inclusivo, torna-se epistemologicamente permissivo.
O Sistema Único de Saúde, ao incorporar práticas ditas “integrativas”, e o próprio sistema de justiça, ao admitir abordagens como constelação familiar em determinados contextos, não estão apenas ampliando possibilidades terapêuticas ou conciliatórias. Estão, ainda que de forma difusa, redefinindo o que é considerado válido enquanto saber no interior da máquina pública.
E isso não é trivial.
Porque o Estado não opera apenas no plano da execução — ele opera também no plano da legitimação.
Aquilo que ele permite, ele tolera.
Aquilo que ele financia, ele endossa.
Aquilo que ele institucionaliza, ele transforma em referência.
A ciência, por sua natureza, é imperfeita, revisável, frequentemente lenta e, muitas vezes, frustrante.
Ela não oferece consolo imediato, nem respostas fáceis.
Mas oferece algo que nenhuma outra forma de conhecimento consegue sustentar com o mesmo rigor:
um compromisso sistemático com o erro — e com sua correção.
Quando o Estado coloca lado a lado práticas baseadas em evidência e práticas baseadas em tradição, experiência subjetiva ou pressupostos não verificáveis, ele não está apenas sendo plural.
Ele está, na prática, diluindo o critério que separa conhecimento de crença.
A defesa usual dessas políticas repousa em três argumentos:
- baixa incidência
- complementaridade
- respeito à diversidade cultural
Todos compreensíveis. Nenhum suficiente.
Porque o risco aqui não é estatístico: é estrutural.
Não se trata de quantas pessoas são atendidas por tais práticas, mas do que o Estado comunica ao fazê-lo: que o critério de validação pode ser flexibilizado sem consequências relevantes.
E isso, a longo prazo, corrói algo muito mais profundo do que um protocolo clínico.
Corrói a própria noção de verdade operacional dentro das instituições.
Há, no entanto, uma dimensão mais sutil — e talvez mais incômoda.
Essas práticas não persistem por acaso.
Elas ocupam um espaço que a racionalidade técnica frequentemente não consegue preencher:
- escuta
- sentido
- pertencimento
- narrativa
Onde a ciência oferece explicação, elas oferecem significado.
E o cidadão, diante da dor, raramente busca apenas explicação.
O erro do Estado, portanto, não está em reconhecer essa dimensão humana.
Está em não saber delimitá-la.
Ao invés de criar espaços legítimos de acolhimento simbólico, sem confundir natureza e função, o Estado opta por um atalho: incorpora, mistura, legitima.
E, ao fazê-lo, produz um efeito paradoxal:
tenta humanizar o sistema, mas termina por fragilizar sua base racional.
No limite, a questão que emerge é desconfortável, mas inevitável:
Pode o Estado ser epistemologicamente neutro?
Ou, ao assumir a gestão do cuidado e da justiça, ele é obrigado a escolher, ainda que implicitamente, quais formas de conhecimento reconhece como válidas?
Se tudo pode ser considerado terapêutico,
se toda prática pode ser acolhida em nome da inclusão,
se toda crença pode se travestir de técnica,
então a própria ideia de evidência deixa de ser um critério — e passa a ser apenas mais uma opinião entre tantas outras…
E quando isso acontece, o que se perde não é apenas rigor científico.
O que se perde é algo mais essencial:
a capacidade do Estado de distinguir, com responsabilidade, entre aquilo que conforta e aquilo que de fato cuida.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea FIOS DO COLAPSO: Ensaios sobre um Mundo Interligado, disponível na Amazon.
