O tribunal anônimo: ficção e vieses na revisão por pares

Quem já submeteu um artigo científico sabe que o ritual da revisão por pares é uma experiência existencial peculiar…

Você envia um texto, espera semanas ou meses, e então recebe um julgamento vindo de pessoas que não conhece, mas que, em tese, julgam apenas o mérito do trabalho.

A promessa é sedutora: um filtro racional, impessoal, no qual vale a pena lembrar das hipóteses, dos métodos e dos resultados, não o sobrenome no cabeçalho.

Quando olhamos para os números, porém, a imagem fica menos nítida.

Autores de instituições de elite recebem notas sistematicamente mais altas, mulheres continuam sub‑representadas em posições de liderança autoral, e pesquisadores de países fora do eixo anglófono enfrentam probabilidades menores de aceitação.

Há, portanto, um descompasso entre o ideal iluminista da revisão por pares e a realidade histórica e social em que ela opera.

O ideal e o real

A revisão por pares nasceu e se consolidou como uma tecnologia institucional para realizar, na prática, o ideal iluminista de uma comunidade de iguais julgando ideias com base em critérios universais.

O revisor é uma espécie de guardião anônimo da qualidade, protegido do autor e, muitas vezes, dele próprio, por procedimentos que deveriam bloquear interesses particulares.

Em teoria, não há gênero, nacionalidade, prestígio ou sotaque; há hipóteses, métodos e resultados. Em teoria, o sistema encarna o universalismo mertoniano: importa o conteúdo da contribuição, não as credenciais sociais de quem contribui.

Mas quando começamos a medir o que acontece de fato na trajetória dos manuscritos, o ideal se choca com uma paisagem bem mais humana.

Estudos mostram que autores afiliados a instituições altamente prestigiadas tendem a receber avaliações mais favoráveis do que colegas de universidades periféricas, mesmo em áreas semelhantes.

Análises de grandes bases de artigos indicam que, embora a participação de mulheres na autoria tenha crescido, elas ainda são minoria nas posições que simbolizam liderança – primeira ou última autoria – em muitos campos.

Trabalhos de pesquisadores de países não anglófonos, por sua vez, enfrentam desvantagens mensuráveis na probabilidade de aceitação, ainda que o tom dos pareceres não pareça ostensivamente mais hostil. Revisão por pares, assim, já começa como um dispositivo que distribui oportunidades de modo desigual.

Prestígio de autor e instituição

Talvez o dado mais intuitivo – e ao mesmo tempo mais desconfortável – seja o viés de prestígio.

Quando o nome do autor e a afiliação são visíveis, revisores atribuem notas mais altas a manuscritos vindos de instituições de elite, sobretudo de países anglófonos.

Em experimentos institucionais onde periódicos passaram a adotar avaliação duplo‑cego, as pontuações dadas a autores já consagrados caem de forma significativa, como se a retirada do crachá simbólico revelasse que, sem o peso do nome, o texto não era tão excepcional assim.

Não se trata de um complô, mas de um atalho cognitivo: o prestígio funciona como heurística de qualidade, e a revisão por pares, longe de eliminá‑la, frequentemente a institucionaliza. A sombra da reputação acompanha o texto até o momento em que o revisor decide se ele “merece” um lugar entre os aceitos.

Gênero

O gênero adiciona outra camada a esse quadro.

Em um levantamento abrangendo dezenas de áreas e mais de uma centena de milhares de artigos, mulheres aparecem em torno de 40% das primeiras autorias e apenas cerca de um terço das últimas, posição normalmente associada à liderança de grupo.

Em alguns periódicos específicos, análises das decisões editoriais não encontram um viés fortíssimo contra artigos assinados por mulheres, o que leva muitos a concluir que “o sistema é neutro”.

Mas essa neutralidade aparente é enganosa: ela se instala sobre uma distribuição inicial já assimétrica de quem chega a submeter, quem coordena grupos, quem tem rede e capital para jogar o jogo.

A revisão por pares, nesse sentido, não cria o viés de gênero; ela o refrata, deixando filtrar apenas uma parte desse fluxo desigual.

Nacionalidade, idioma, centro e periferia

A geografia do conhecimento aparece também nas estatísticas de aceitação por país e idioma. Autores de regiões centrais, especialmente de países de língua inglesa, não apenas publicam mais, como têm maiores chances de ver seus manuscritos aceitos em periódicos de alto impacto.

Parte dessa diferença pode ser atribuída a condições materiais como financiamento, tempo, acesso a redes de colaboração, mas há indícios de que o idioma e a origem nacional funcionam como marcadores simbólicos que influenciam o julgamento, mesmo quando a qualidade técnica é comparável.

Curiosamente, em alguns estudos de pareceres, o tom dos revisores não é abertamente mais negativo com autores de países periféricos, o que sugere um viés mais sutil: pequenas dúvidas extras, exigências adicionais, uma tendência a pedir “mais evidências” antes de conceder o benefício da dúvida.

O sistema, assim, discute menos sobre objetividade do que sobre quem tem o direito de ser considerado “pronto” para o palco central.

Double‑blind e a “engenharia” do sistema

O caso da revisão duplo‑cego é especialmente revelador, porque funciona como um experimento institucional involuntário sobre o viés.

Quando periódicos migram de um modelo em que o nome do autor é visível para outro em que autores e revisores são cegados, não mudam apenas as etiquetas: mudam as distribuições de notas, os padrões de aceitação, a própria forma como os avaliadores leem o texto.

Em várias análises, observa‑se que, sob o regime duplo‑cego, manuscritos de autores afiliados a instituições de elite deixam de receber as mesmas notas sistematicamente mais altas que recebiam antes; a curva de pontuações “aperta”, como se a sombra do prestígio deixasse de iluminar tanto o caminho.

A ironia é que, mesmo com essa redução do viés de prestígio nas notas, as diferenças finais de aceitação tendem a cair menos do que se esperaria, lembrando que hierarquias são resilientes e se reacomodam.

Talvez o achado mais filosófico nesses estudos não seja nem tanto o efeito do anonimato, mas o impacto de ajustes aparentemente banais no próprio instrumento de avaliação.

Em conferências de grande porte, uma simples mudança na escala de notas, por exemplo, reduzir de dez para quatro categorias – foi suficiente para diminuir ainda mais a vantagem de manuscritos associados a nomes consagrados.

Ao obrigar revisores a fazer escolhas mais grossas, com menos gradações para expressar simpatias e antipatias implícitas, o sistema restringe a margem de manobra dos vieses. Em outras palavras: a interface importa.

Aquilo que muitos imaginam como puro “juízo de mérito” depende intimamente de detalhes de design: quantos pontos tem a escala, como se formula a pergunta, quais campos são obrigatórios, todos eles escolhas humanas, contingentes, historicamente situadas.

Ainda assim, há um limite óbvio para o que o double‑blind pode fazer.

Em áreas muito especializadas, revisores frequentemente conseguem inferir quem está escrevendo a partir do estilo, das referências, da continuidade de um programa de pesquisa; em comunidades pequenas, o anonimato formal mal disfarça a familiaridade.

 Mas o problema mais profundo é outro: cegar identidades na etapa da avaliação não altera o fato de que o caminho até ali já foi moldado por desigualdades de gênero, raça, classe, idioma e infraestrutura.

Quem teve acesso a bolsas, equipamentos, redes de colaboração internacionais e formação em inglês acadêmico chega com muito mais probabilidade à condição de “autor submetente” em um periódico de ponta.

A revisão por pares duplo‑cego, por mais bem‑intencionada que seja, opera sobre um fluxo de manuscritos que já carrega a marca de assimetrias anteriores. Ela pode aparar algumas arestas discriminatórias, mas não reescreve o roteiro.

As experiências mais recentes – revisão aberta, publicação de pareceres, pré‑prints com comentários públicos, formas híbridas de avaliação pós‑publicação, tentam reconfigurar esse cenário, mas também trazem seus próprios vieses.

Ao tornar públicos os nomes de revisores, por exemplo, aumenta‑se a responsabilidade, mas também o risco de retaliação e o peso das hierarquias de reputação.

Plataformas de pré‑prints democratizam o acesso, mas deslocam parte da curadoria para redes sociais acadêmicas, onde o capital simbólico de certos grupos se exerce de maneira ainda menos regulada.

O ponto, aqui, não é escolher um modelo “puro”, mas reconhecer que cada desenho institucional distribui poder de modo diferente: quem decide o que vale, quem fala em nome de quem, quem fica de fora sem sequer saber que ficou.

Ciência, campo e ritual

Uma forma fecunda de ler tudo isso é abandonar a imagem da ciência como uma arena etérea de argumentos desencarnados e assumir, com Bourdieu, que ela é um campo, isto é, um espaço social com posições, capitais e lutas. Nesse campo, a revisão por pares não é apenas um mecanismo técnico de triagem de qualidade; é também um dispositivo de consagração e exclusão.

Ao selecionar quem publica onde, em que ritmo, com quais rótulos de prestígio na capa do artigo, o sistema ajuda a acumular capital simbólico para uns e a negá‑lo a outros.

O viés de prestígio que tanto preocupa as análises empíricas é, sob esse ângulo, menos um desvio e mais um modo de funcionamento normal do campo científico: o reconhecimento prévio tende a produzir mais reconhecimento, num ciclo de autorreforço.

A distância entre esse diagnóstico e o ideal mertoniano é flagrante.

Se tomarmos a sério normas como o universalismo (julgar ideias independentemente de quem as formula) e o desinteresse (colocar a busca de verdade acima de ganhos particulares), o que a literatura sobre revisão por pares revela é uma sucessão de pequenas violações normalizadas.

O que pesa não é apenas a qualidade do argumento, mas o sobrenome, a afiliação, o gênero, o passaporte, a adequação do tema à agenda “da moda”.

Em vez de imaginar que isso seja uma corrupção ocasional de um sistema bem desenhado, talvez seja mais honesto admitir que o design institucional da ciência nunca foi neutro, apenas conseguiu disfarçar seus favoritismos sob uma linguagem de objetividade.

Do ponto de vista kuhniano, o comportamento conservador da revisão por pares é quase inevitável.

Paradigmas científicos não são apenas conjuntos de teorias; são matrizes de problemas considerados legítimos, métodos reputados adequados, estilos de explicação que “fazem sentido” para a comunidade.

Revisores, formados nesse caldo, tendem a valorizar trabalhos que prolongam a ciência normal, que preenchem lacunas reconhecidas, que confirmam expectativas plausíveis.

 Artigos que desafiam demais as fronteiras do aceitável – metodológica ou teoricamente – são mais fáceis de rejeitar como “prematuros”, “exploratórios demais”, “não suficientemente ancorados na literatura”. O viés aqui não é psicológico, mas estrutural: o aparato de avaliação está desenhado para reforçar o paradigma vigente, não para abrir espaço indiscriminado à anomalia.

A pergunta incômoda é se esses vieses são meros custos colaterais de um sistema que, no essencial, funciona bem, ou se são elementos estruturais de como comunidades produzem e validam conhecimento.

Talvez não haja, em sociedades reais, um modo de avaliação completamente livre de prestígio, identidade, moda e poder. Sempre haverá um “establishment” com mais voz, uma periferia com menos acesso, um conjunto de temas considerados urgentes e outros relegados à irrelevância.

Reconhecer isso não significa relativizar toda a ciência, mas admitir que a objetividade é um trabalho coletivo em permanente tensão com suas próprias condições sociais. A revisão por pares é um desses lugares de tensão.

Em última instância, olhar para os vieses da revisão por pares com esse grau de detalhe é uma forma de humanizar a ciência, não de deslegitimá‑la.

Em vez de imaginar um tribunal de razão pura, vemos um conjunto de práticas falíveis, historicamente enraizadas, que tentam, com graus variados de sucesso, aproximar julgamentos humanos de um ideal de imparcialidade que nunca se realiza plenamente.

Ao incorporar mecanismos de cegamento, transparência, diversidade de corpos editoriais e experimentos com novos modelos de avaliação, a comunidade científica reconhece, ainda que implicitamente, que não é feita de deuses neutros, mas de humanos situados.

Essa confissão, longe de enfraquecer a ciência, lhe concede mais seriedade: talvez seja possível, afinal, construir uma ciência menos ingênua a respeito de si mesma, sem perder a obstinada devoção à tarefa de conhecimento.


Conclusão

A revisão por pares continua sendo um dos dispositivos centrais da produção científica contemporânea, mas não como imagem de um tribunal impessoal onde só as ideias falam.

Ela é, antes de tudo, um mecanismo social atravessado por vieses de gênero, nacionalidade, prestígio, idioma e conformismo intelectual, que atuam tanto nos manuscritos que chegam quanto nas formas como são julgados.

Double‑blind, escalas de avaliação, experimentos de revisão aberta e outras engenharias institucionais conseguem reduzir certos vieses, mas não os eliminam; eles apenas redistribuem o peso das assimetrias.

Em vez de insistir na ficção de uma ciência eternamente neutra, talvez seja mais honesto reconhecer que a ciência é obra de humanos históricos, com hierarquias, capitais e modas internas.

Essa confissão não a enfraquece, ao contrário: ao expor seus mecanismos de exclusão e consagração, abre espaço para corrigi‑los continuamente, sem ilusão de perfeição, mas com mais lucidez sobre o que, afinal, anda valendo como conhecimento.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o Perplexity  como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea FIOS DO COLAPSO: Ensaios sobre um Mundo Interligado, disponível na Amazon.

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