Turismo, redes sociais e a banalização contemporânea da estupidez
Viajar deveria ser uma das experiências mais enriquecedoras da condição humana. Conhecer outros povos, idiomas, hábitos e visões de mundo amplia horizontes, relativiza certezas e recorda ao indivíduo que sua cultura não é o centro do universo. O turismo, em sua melhor forma, é uma celebração da diversidade humana.
Entretanto, a realidade contemporânea frequentemente revela algo muito diferente.
Em pleno século XXI, época que se orgulha de seus avanços tecnológicos, conectividade global e discursos permanentes sobre civilização, multiplicam-se episódios de turistas envolvidos em atitudes racistas, xenófobas, agressivas ou profundamente desrespeitosas contra populações locais. E o mais inquietante não é apenas a existência desses comportamentos, mas a aparente naturalidade com que muitos deles são praticados publicamente.
Não se trata de um problema nacional. Nenhum povo possui monopólio da estupidez humana. Casos semelhantes surgem em diferentes países, culturas e continentes. O fenômeno parece muito mais ligado a mecanismos psicológicos, sociais e políticos que atravessam a própria condição humana contemporânea.
Existe uma curiosa transformação psicológica que acomete parte das pessoas quando deixam seu ambiente habitual: a sensação inconsciente de suspensão moral. Como se atravessar fronteiras geográficas também suspendesse obrigações éticas básicas.
Fora de casa, alguns indivíduos passam a agir como se normas de respeito, empatia e convivência civilizada fossem opcionais. O país anfitrião deixa de ser percebido como espaço humano compartilhado e transforma-se em mero cenário de consumo, entretenimento ou autoafirmação.
Esse comportamento é agravado pelas redes sociais, que converteram a exibição pública da estupidez em mecanismo de recompensa psicológica.
Durante grande parte da história, atitudes preconceituosas ou socialmente degradantes tendiam a gerar constrangimento. Hoje, dependendo do ambiente digital, elas podem gerar curtidas, seguidores, engajamento e validação tribal. O indivíduo deixa de buscar aprovação moral ampla e passa a buscar aprovação apenas de sua bolha ideológica ou emocional.
A lógica algorítmica das plataformas intensifica esse processo. O absurdo gera reação. A reação gera alcance. O alcance gera visibilidade. E a visibilidade transforma até mesmo comportamentos deploráveis em capital social.
A estupidez performática tornou-se economicamente rentável e socialmente viralizável.
Nesse contexto, surge outro elemento preocupante: a influência simbólica de lideranças políticas e figuras públicas que normalizam discursos agressivos, desumanizantes ou hostis. Quando autoridades tratam intolerância como mera “opinião forte”, parte da população interpreta isso como autorização moral para ultrapassar limites antes socialmente reprimidos.
A história humana demonstra repetidamente que multidões raramente precisam de ordens explícitas para agir irresponsavelmente. Frequentemente basta a percepção de permissividade simbólica.
O fenômeno não depende de ideologia específica, nacionalidade ou espectro político exclusivo. Sempre que lideranças transformam agressividade em demonstração de força, seguidores mais radicalizados tendem a interpretar civilidade como fraqueza e intolerância como coragem.
As redes sociais ampliaram dramaticamente esse efeito ao criar ambientes onde indignação, hostilidade e humilhação pública recebem mais atenção do que ponderação, empatia ou discernimento.
E talvez o aspecto mais revelador desses episódios seja o comportamento posterior de muitos envolvidos.
Após praticarem atos ofensivos, discriminatórios ou humilhantes, frequentemente passam a se apresentar como vítimas de perseguição, intolerância ou “exagero”. A responsabilidade individual dissolve-se rapidamente em discursos de vitimização, relativização ou transferência de culpa.
É o paradoxo contemporâneo da irresponsabilidade moral: pessoas que reivindicam liberdade absoluta para agredir, mas enorme sensibilidade quando confrontadas pelas consequências de seus próprios atos.
No fundo, muitos desses casos revelam algo maior do que simples má educação. Revelam uma erosão gradual da capacidade de reflexão moral autônoma.
A expressão “Não Custa Pensar” torna-se especialmente pertinente porque grande parte desses comportamentos nasce precisamente da ausência de reflexão. O indivíduo não considera impactos, contexto, dignidade alheia ou consequências. Apenas reage emocionalmente, imita comportamentos de grupo ou busca validação instantânea.
O efeito manada reduz pessoas adultas a comportamentos infantis coletivos.
A civilização, porém, depende justamente do oposto: autocontenção, discernimento e capacidade de reconhecer limites éticos mesmo quando ninguém está olhando — ou mesmo quando uma multidão virtual aplaude o erro.
Talvez a maior ironia de nossa época seja esta: nunca tivemos tanto acesso à informação e, simultaneamente, tamanha dificuldade coletiva em transformar informação em maturidade.
A tecnologia conectou continentes, mas não necessariamente elevou consciências.
E enquanto a estupidez continuar sendo confundida com autenticidade, agressividade com coragem e preconceito com liberdade de expressão irrestrita, continuaremos assistindo a adultos plenamente conscientes comportando-se de maneira que até crianças pequenas aprenderiam a evitar.
Porque, no fim, civilização não é aquilo que uma sociedade proclama sobre si mesma.
É aquilo que seus indivíduos fazem quando acreditam que podem agir sem consequências.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
