Como as sociedades modernas continuam produzindo excluídos
A história da humanidade costuma ser narrada como uma sucessão de conquistas. Domamos o fogo, inventamos a escrita, cruzamos oceanos, erradicamos doenças, pousamos na Lua e, agora, conectamos bilhões de pessoas por meio de redes digitais. Cada geração acredita viver o auge do progresso, convencida de que superou as limitações da anterior.
Entretanto, existe um aspecto menos celebrado dessa trajetória.
Quase todo avanço produz, involuntariamente, um novo grupo de excluídos.
Durante muito tempo, essas exclusões foram explícitas. Pessoas eram privadas de direitos por sua origem, religião, etnia, sexo ou condição social. Hoje, em grande parte do mundo democrático, essas formas de discriminação são “oficialmente” rejeitadas. A igualdade tornou-se um valor jurídico e moral amplamente reconhecido…
Mas a exclusão não desapareceu.
Ela apenas tornou-se mais silenciosa.
Nos últimos anos, tornou-se comum transferir praticamente todos os serviços públicos para plataformas digitais. Agendar consultas, solicitar benefícios, declarar impostos, assinar documentos, acessar bancos e até provar a própria identidade passaram a depender de aplicativos, senhas, autenticação em dois fatores e reconhecimento facial.
Sob muitos aspectos, essa transformação representa um enorme avanço. Ela reduz burocracias, acelera processos, diminui custos administrativos e dificulta fraudes. Seria absurdo defender o retorno às longas filas, aos formulários em papel e aos intermináveis carimbos que durante décadas simbolizaram a lentidão do Estado.
O problema não está na tecnologia.
Está na suposição de que todos conseguem acompanhá-la.
Quando um benefício previdenciário, um atendimento médico ou um direito fundamental passa a depender exclusivamente de competências digitais, uma parcela da população deixa de enfrentar apenas dificuldades tecnológicas. Passa a enfrentar dificuldades de cidadania.
O curioso é que ninguém pretende excluir essas pessoas.
Não existe um projeto político declarando que idosos devam ter menos direitos. Não há leis proibindo cidadãos com pouca familiaridade tecnológica de participar da vida pública. A exclusão nasce de outra maneira.
Ela surge quando os responsáveis pelo desenho das políticas públicas imaginam um cidadão que, simplesmente, não representa todos os cidadãos.
Ao longo da história, diferentes sociedades construíram diferentes imagens desse indivíduo considerado “normal”.
Em determinados períodos, o modelo era o homem proprietário. Em outros, o cidadão alfabetizado, o trabalhador industrial ou o consumidor de massa. Cada época estabelece, de forma quase imperceptível, um padrão humano em torno do qual organiza suas instituições.
O século XXI parece estar construindo um novo personagem.
O cidadão digital.
Ele possui smartphone, conexão permanente à internet, familiaridade com aplicativos, facilidade para criar senhas complexas, realizar autenticações eletrônicas, utilizar reconhecimento facial e resolver problemas técnicos com relativa autonomia.
É um perfil cada vez mais comum.
Mas não é universal.
Milhões de idosos, pessoas com deficiência, cidadãos de baixa escolaridade, moradores de regiões com infraestrutura precária e indivíduos que simplesmente nunca tiveram oportunidade de desenvolver habilidades digitais continuam existindo. O progresso, porém, frequentemente parece esquecer sua existência.
Essa lógica não é inteiramente nova.
No final do século XIX e início do século XX, diversos países adotaram políticas inspiradas na ideia de que seria possível aperfeiçoar suas populações aproximando-as de um determinado modelo considerado superior. No Brasil, a chamada política de “branqueamento” partia da falsa premissa de que características raciais europeias representariam um ideal de civilização, enquanto outras deveriam desaparecer ao longo das gerações.
Hoje, essa visão nos parece moralmente inaceitável — e com razão.
Não porque a história tenha eliminado a tendência de estabelecer padrões humanos, mas porque aprendemos a reconhecer os danos produzidos quando uma sociedade transforma um grupo específico em referência para todos os demais.
Seria um erro estabelecer qualquer equivalência entre aquele projeto racial e os desafios contemporâneos da transformação digital. São fenômenos de naturezas profundamente distintas. Ainda assim, ambos revelam um mecanismo semelhante: a construção de um ser humano considerado padrão, diante do qual todos os demais passam, consciente ou inconscientemente, a ser vistos como inadequados.
Antes, o problema estava na cor da pele.
Hoje, muitas vezes, está na capacidade de acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas.
Essa diferença é suficiente para alterar a forma da exclusão, mas não sua lógica.
O mais preocupante é que ela ocorre sem hostilidade aparente.
Ninguém olha para um idoso tentando acessar um aplicativo bancário e deseja seu fracasso. Pelo contrário, quase sempre existe boa vontade. O que falta é perceber que sistemas pensados exclusivamente para usuários experientes acabam impondo barreiras invisíveis justamente àqueles que mais necessitam de proteção.
Esse fenômeno não se limita aos idosos.
Ele alcança pessoas com deficiência visual diante de plataformas inacessíveis, trabalhadores de baixa renda sem acesso contínuo à internet, moradores de áreas remotas, indivíduos com limitações cognitivas e tantos outros cuja realidade raramente participa das mesas onde se desenham políticas públicas.
O paradoxo é evidente.
Nunca produzimos tecnologias tão sofisticadas para aproximar pessoas.
E, no entanto, elas também podem ampliar distâncias quando são concebidas sem considerar a diversidade humana.
Talvez isso revele uma característica permanente das sociedades.
Toda época produz seus invisíveis.
Ontem eram aqueles excluídos pela origem.
Hoje podem ser aqueles excluídos pelo algoritmo.
A diferença é que a nova exclusão dificilmente desperta indignação coletiva, justamente porque se apresenta como consequência inevitável do progresso. Quem encontra dificuldades costuma ouvir que precisa “se atualizar”, “aprender a usar” ou “acompanhar os novos tempos”, como se todos tivessem partido do mesmo ponto e recebido as mesmas oportunidades!
Mas o progresso verdadeiro não pode ser medido apenas pela velocidade das inovações.
Ele também deve ser avaliado pela capacidade de levar consigo aqueles que caminham mais devagar.
Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não é aquela em que apenas os mais preparados conseguem exercer plenamente seus direitos. É aquela que desenha suas instituições para acolher também quem possui limitações, temporárias ou permanentes.
Esse talvez seja o grande desafio da era digital.
Não basta construir sistemas inteligentes.
É preciso construir sistemas humanos.
A tecnologia continuará avançando. Novas formas de autenticação substituirão as atuais, a inteligência artificial assumirá tarefas cada vez mais complexas e serviços públicos tornar-se-ão ainda mais automatizados. Nada disso precisa ser motivo de temor.
O risco não está nas máquinas.
Está na possibilidade de que, fascinados por sua eficiência, passemos a desenhar uma sociedade adequada às tecnologias, em vez de desenvolver tecnologias adequadas às pessoas.
No fundo, a pergunta que definirá a qualidade moral do nosso tempo talvez seja extremamente simples.
Estamos utilizando o progresso para ampliar a cidadania ou para redefinir, silenciosamente, quem merece exercê-la?
Porque toda civilização deixa sua marca não apenas pelas pontes que constrói, pelas máquinas que inventa ou pela riqueza que produz.
Ela também será lembrada por aqueles que escolheu enxergar.
E, sobretudo, por aqueles que permitiu tornar-se invisíveis.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
