Por que é tão difícil haver bons políticos?

Sempre que uma eleição termina, repete-se o mesmo ritual. Uns comemoram. Outros lamentam. Passados alguns meses, porém, um curioso consenso costuma surgir: quase todos se dizem decepcionados com os políticos.

O fenômeno atravessa países, culturas, religiões e ideologias. Conservadores criticam seus representantes. Progressistas fazem o mesmo. Liberais, socialistas, nacionalistas, ambientalistas… todos parecem compartilhar a sensação de que bons políticos são raros.

Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Em vez de perguntar por que existem tantos maus políticos, talvez devêssemos perguntar por que é tão difícil que o próprio sistema produza bons políticos.

A diferença parece sutil.

Não é.

Ela desloca a responsabilidade dos indivíduos para os mecanismos de seleção.

Nenhuma profissão escolhe seus integrantes por acaso.

A medicina exige anos de estudo, conhecimento técnico e treinamento constante. A engenharia recompensa precisão. A pesquisa científica depende da curiosidade intelectual e do rigor metodológico.

Mas quais características são necessárias para vencer uma eleição?

A resposta pode ser desconfortável.

Antes de governar, o candidato precisa conquistar votos.

Precisa comunicar-se bem.

Convencer.

Mobilizar.

Construir alianças.

Enfrentar adversários.

Resistir a ataques.

Levantar recursos.

Sobreviver a uma longa disputa de poder.

Nada disso é, necessariamente, a mesma habilidade exigida para administrar uma sociedade complexa.

Confundimos competência eleitoral com competência administrativa.

É como escolher o diretor de um hospital realizando uma competição de oratória. Ou selecionar o comandante de uma aeronave por sua popularidade entre os passageiros.

Talvez o processo de escolha premie qualidades importantes para vencer uma eleição, mas insuficientes para governar bem.

Existe ainda um aspecto raramente discutido.

Governar é, essencialmente, uma atividade de cooperação.

Uma sociedade funciona quando milhões de pessoas conseguem coordenar esforços, construir consensos mínimos e resolver conflitos sem recorrer à violência.

Entretanto, o caminho até o governo é profundamente competitivo.

Campanhas eleitorais são disputas.

Partidos disputam espaço.

Candidatos disputam visibilidade.

Narrativas disputam atenção.

Tudo é estruturado em torno da lógica da vitória.

O paradoxo torna-se evidente.

Escolhemos nossos governantes por meio de um sistema baseado na competição para exercer uma função cuja essência deveria ser a cooperação.

Talvez isso explique parte da frustração permanente das democracias contemporâneas.

Esperamos encontrar administradores.

Mas selecionamos competidores.

Naturalmente, isso não significa que toda pessoa eleita seja incapaz de governar, nem que toda competição seja prejudicial. A competição pode estimular inovação, revelar talentos e impedir acomodações.

O problema surge quando ela deixa de ser instrumento e transforma-se em critério absoluto de seleção.

Nesse ambiente, qualidades discretas tendem a perder espaço.

A prudência parece fraqueza.

A moderação parece indecisão.

A capacidade de ouvir parece falta de liderança.

Já a autoconfiança excessiva, a retórica contundente e as promessas grandiosas costumam receber muito mais atenção.

O espetáculo frequentemente vence a competência.

As redes sociais intensificaram esse fenômeno.

Algoritmos privilegiam conflitos.

Debates equilibrados geram menos engajamento do que confrontos.

Frases de efeito circulam mais rapidamente do que análises cuidadosas.

A política passa, então, a obedecer à mesma lógica do entretenimento: vence quem consegue capturar atenção, não necessariamente quem apresenta as melhores soluções.

Talvez estejamos assistindo à transformação gradual da democracia em um campeonato permanente de popularidade.

E campeonatos costumam produzir torcidas.

Torcidas raramente apreciam a dúvida.

Preferem certezas.

Preferem heróis.

Preferem adversários claramente definidos.

Entretanto, governar exige justamente o contrário.

Exige negociação.

Escuta.

Flexibilidade.

Capacidade de rever posições diante de novos fatos.

Virtudes pouco compatíveis com ambientes dominados pela disputa permanente.

Talvez, por isso, a decepção com os políticos seja recorrente.

Esperamos que eles se comportem como administradores depois de passarem anos sendo recompensados por agir como competidores.

Talvez não exista uma solução simples para esse paradoxo.

Mas reconhecer sua existência já representa um avanço.

Porque sociedades não produzem suas lideranças por acaso.

Cada sistema seleciona exatamente as características que decide premiar.

Se admiramos apenas quem vence, talvez escolhamos excelentes vencedores.

Se valorizamos apenas quem domina o palco, talvez elejamos grandes comunicadores.

Mas, se desejamos governantes capazes de construir consensos, administrar conflitos e pensar nas próximas gerações, talvez seja necessário revisar não apenas nossos candidatos.

Talvez seja preciso revisar os critérios pelos quais escolhemos nossos líderes.

Afinal, uma civilização não é definida apenas pelos valores que proclama.

Ela é definida, sobretudo, pelas qualidades que recompensa.

E talvez a pergunta mais importante de todas não seja por que existem poucos bons políticos.

Seja esta:

Que tipo de sociedade estamos construindo quando os caminhos para chegar ao poder exigem competências tão diferentes daquelas necessárias para exercê-lo com sabedoria?


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

Rolar para cima