O Cérebro Tribal no Mundo Global

Por que buscamos inimigos simples para problemas complexos

Se um observador extraterrestre estudasse a humanidade apenas por alguns dias, provavelmente chegaria a uma conclusão curiosa.

Encontraria uma espécie capaz de construir telescópios que enxergam galáxias formadas há bilhões de anos atrás, computadores capazes de realizar trilhões de operações por segundo e sondas que exploram os confins do Sistema Solar.

Mas também encontraria essa mesma espécie discutindo apaixonadamente se uma Inteligência Artificial “é de esquerda”, transformando um desenho feito por uma criança em motivo de conflito religioso ou convertendo qualquer opinião divergente em prova de que o outro pertence ao “lado errado”.

A contradição parece absurda.

Mas talvez não seja.

Talvez estejamos tentando compreender um mundo do século XXI utilizando um cérebro que evoluiu para sobreviver na savana africana há dezenas de milhares de anos.


Durante quase toda a história da nossa espécie, viver significava pertencer a um pequeno grupo.

Nossa sobrevivência dependia da cooperação dentro da tribo.

Confiar rapidamente nos semelhantes e desconfiar dos desconhecidos aumentava as chances de permanecer vivo.

Em um ambiente repleto de predadores, recursos escassos e conflitos entre grupos, não havia tempo para análises profundas.

Era necessário decidir rapidamente.

Amigo ou inimigo.

Seguro ou perigoso.

Nós ou eles.

Esse mecanismo foi extraordinariamente eficiente.

Graças a ele, nossa espécie conseguiu sobreviver.

O problema é que a evolução biológica é muito mais lenta do que a evolução cultural e tecnológica.

Nosso cérebro mudou pouco.

O mundo mudou completamente.


Hoje convivemos diariamente com bilhões de pessoas que jamais conheceremos.

Compramos produtos fabricados em continentes distantes.

Dependemos de cadeias econômicas globais.

Recebemos informações produzidas em todos os fusos horários.

Interagimos com algoritmos capazes de aprender padrões invisíveis ao olhar humano.

Mas continuamos utilizando os mesmos atalhos mentais desenvolvidos para interpretar pequenos grupos de caçadores-coletores.

Continuamos procurando tribos.

Apenas mudaram seus nomes:

Partidos políticos.

Times de futebol.

Religiões.

Nacionalidades.

Empresas.

Ideologias.

Redes sociais.

Até tecnologias.

Não demorou muito para surgirem os torcedores de sistemas operacionais, de criptomoedas, de inteligências artificiais e até mesmo de plataformas digitais.

A lógica permanece rigorosamente a mesma.

Pertencer é mais confortável (e menos trabalhoso) do que compreender.


Esse mecanismo ajuda a explicar um dos fenômenos mais curiosos do nosso tempo.

Quanto mais complexos se tornam os problemas, maior parece ser nossa necessidade de encontrar explicações simples.

Mudanças climáticas.

Crises econômicas.

Migrações.

Inteligência Artificial.

Desigualdade.

Transformações culturais.

Todos esses fenômenos resultam de milhares de causas interligadas.

Ainda assim, insistimos em procurar um único culpado.

Um governo.

Uma ideologia.

Uma empresa.

Uma religião.

Um algoritmo.

Um país.

Como se sistemas extremamente complexos pudessem ser explicados por um único personagem…

Nosso cérebro aprecia narrativas.

A realidade prefere redes.


Talvez seja por isso que os rótulos exercem tamanho fascínio.

Eles economizam energia mental.

Transformam pessoas em categorias.

Ideias em slogans.

Sociedades em caricaturas.

A classificação produz uma agradável sensação de compreensão.

Mas compreender não é classificar.

Uma palavra nunca consegue conter toda a complexidade de uma pessoa.

Da mesma forma, conceitos como “esquerda”, “direita”, “capitalismo”, “socialismo”, “religião” ou “ciência” jamais esgotam a riqueza dos fenômenos que procuram representar.

Os mapas continuam sendo úteis.

O problema começa quando esquecemos que eles não são o território.


Essa mesma lógica aparece em praticamente todos os conflitos contemporâneos.

Quando uma Inteligência Artificial produz uma resposta inesperada, alguns procuram imediatamente descobrir “de que lado ela está”.

Quando uma enciclopédia colaborativa toma uma decisão controversa, discute-se qual grupo a controla.

Quando uma criança desenha um símbolo religioso, muitos deixam de enxergar o desenho e passam a enxergar suas próprias convicções refletidas nele.

Em todos esses casos, o objeto permanece praticamente o mesmo.

O que muda é o significado que cada observador projeta sobre ele.

Não reagimos apenas aos fatos.

Reagimos às histórias que contamos sobre os fatos.


Isso não significa que o tribalismo seja um defeito moral.

Ao contrário.

Ele foi uma extraordinária adaptação evolutiva.

Durante milhares de gerações, confiar na própria tribo aumentou nossas chances de sobrevivência.

O problema surge quando utilizamos esse mesmo mecanismo para interpretar uma civilização global, profundamente interdependente e composta por bilhões de indivíduos.

Aquilo que antes aumentava nossas chances de viver passou, em muitos contextos, a limitar nossa capacidade de compreender.


Talvez o maior desafio do século XXI não seja desenvolver inteligências artificiais mais sofisticadas.

Nem construir computadores mais rápidos.

Nem produzir mais informação.

Talvez o verdadeiro desafio seja aprender a reconhecer os limites do próprio cérebro que produziu todas essas conquistas.

Nossa inteligência nos permitiu compreender galáxias, manipular o DNA e criar máquinas capazes de aprender.

Mas ela ainda precisa aprender algo muito mais difícil:

conviver com a complexidade sem reduzi-la imediatamente a uma disputa entre “nós” e “eles”.

Enquanto não conseguirmos fazer isso, continuaremos utilizando uma ferramenta extraordinariamente poderosa para responder perguntas cada vez mais simples.

E talvez seja justamente essa a maior contradição da civilização contemporânea.

Nunca soubemos tanto.

Nunca tivemos acesso a tanta informação.

E, ainda assim, continuamos procurando inimigos simples para explicar um mundo que jamais foi tão complexo.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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