Os Novos Deuses do Mundo Moderno

Quando o homem não entende algo, ele conta uma história sobre isso. Foi assim há quase quatro mil anos, quando os sumérios gravaram em tábuas de argila a saga de Gilgamesh, o rei que buscava a imortalidade e encontrava, no caminho, um dilúvio que apagava o mundo para recomeçá-lo. A mesma água reaparece, séculos depois, na arca de Noé; reaparece na Grécia, na Odisseia, onde um homem enfrenta monstros e deuses só para voltar para casa. O padrão se repete porque a pergunta é sempre a mesma: por que sofremos, por que morremos, o que existe além do que vemos? Sem resposta científica, a humanidade respondeu com mito.

A pergunta que interessa aqui é outra: esse impulso desapareceu, ou só mudou de roupa?

O vácuo que o mito preenche

Mitos antigos não nasciam do nada. Nasciam de um vácuo — algo que a experiência humana não conseguia explicar, e que precisava, mesmo assim, de uma explicação. O trovão virava a ira de um deus. A morte virava uma passagem, não um fim. O caos do mundo virava uma narrativa com começo, meio e um propósito, ainda que trágico.

Hoje esse vácuo cosmológico foi, em grande parte, preenchido pela ciência. Sabemos por que chove. Sabemos, com razoável precisão, por que morremos. Mas um outro vácuo continua tão aberto quanto sempre esteve: o vácuo moral. Por que o mal vence tantas vezes? Por que a justiça chega tarde, ou não chega? Que tipo de pessoa seria capaz de consertar isso?

É nesse vácuo — não no cosmológico, mas no moral — que nascem os super-heróis.

Gotham como Uruk

Batman não explica um trovão. Mas explica, à sua maneira, uma injustiça: a de uma criança que vê os pais morrerem sem motivo, num beco, e decide que ninguém mais vai passar por aquilo enquanto ele puder impedir. Superman não é um deus da colheita, mas é a resposta a uma pergunta que todo imigrante, todo deslocado, já se fez: o que eu faço com a força que tenho, num lugar que não é o meu?

Isso não é coincidência de enredo. É arquétipo. Joseph Campbell mapeou, décadas atrás, a estrutura que se repete de Gilgamesh a Hércules a Cristo: o herói chamado à aventura, a provação, a morte simbólica, o retorno transformado. Batman segue esse roteiro com uma fidelidade quase didática. Superman também — e não é acaso que tantos já tenham notado o paralelo entre sua origem e a de Moisés: uma criança enviada por seus pais rumo à sobrevivência, encontrada por estranhos, criada para um destino maior que ela mesma.

A diferença é que Uruk existiu. Gotham, não. Mas daqui a mil anos, quem vai lembrar disso com certeza?

O que muda: o mito agora tem dono

Aqui mora a diferença que talvez separe os heróis modernos dos antigos — e que vale a pena não esconder debaixo do tapete, porque é o que torna esse ensaio honesto, e não só uma comparação bonita.

O mito da Odisseia não tinha dono. Foi contado, recontado, alterado por gerações de aedos até ser fixado por Homero — ou por quem quer que se escondesse atrás desse nome. Ninguém cobrava direitos autorais sobre o ciclope. O Dilúvio sobreviveu por acidente: tábuas de argila enterradas sob a areia, esquecidas, redescobertas por arqueólogos que não esperavam encontrá-las.

Batman e Superman sobrevivem de outro jeito. Sobrevivem porque a Warner Bros. e a DC Comics têm um interesse comercial direto e permanente em que eles sobrevivam. Cada filme, cada relançamento, cada reboot é também uma renovação de marca registrada. O mito, aqui, não é espontâneo — é administrado. Tem departamento jurídico.

Isso invalida a comparação? Eu diria que não — só muda a pergunta. Os mitos antigos precisavam de um culto, de um templo, de um ritual para se manter vivos entre gerações sem imprensa nem internet. Os mitos modernos têm outro tipo de ritual: o cinema de sexta à noite, o quadrinho mensal, o parque temático. A instituição mudou de forma, mas a função é a mesma — manter viva, geração após geração, uma história poderosa demais para ser deixada morrer.

E se funcionar mesmo assim?

Há uma diferença entre um mito ser verdadeiro e um mito funcionar. Ninguém acredita, literalmente, que um dilúvio cobriu toda a Terra — mas a história ainda ensina algo sobre culpa, recomeço e sobrevivência. Da mesma forma, ninguém acredita que existe um homem-morcego em Gotham — mas milhões de pessoas, todos os anos, ainda usam essa história para pensar sobre trauma, vingança e os limites da justiça.

Se um mito é, no fundo, uma máquina de sentido — uma forma de a humanidade processar o que não consegue resolver sozinha —, então a origem corporativa do herói moderno não o desqualifica. Só prova que, mesmo numa era de contratos e trimestres fiscais, ainda precisamos das mesmas histórias que precisávamos há quatro mil anos. Só trocamos o escriba pelo roteirista.

Arqueólogos do futuro

É provável que, dentro de mil anos ou mais, arqueólogos do futuro procurem por cidades como Gotham ou Metrópolis, lar de seus heróis e deuses como Batman e Superman, da mesma forma que hoje procuramos pela arca de Noé e outras coisas ao estilo. Não porque essas cidades existiram — assim como Uruk existiu, ou a Troia de Homero —, mas porque a distinção entre mito e história sempre foi mais frágil do que gostamos de admitir. O que sobrevive não é o fato. É a necessidade que o fato — ou a ficção — soube responder.

Talvez, no fim, a pergunta não seja se Batman vai virar um futuro Cristo ou Buda. Talvez a pergunta seja: alguma vez deixamos de precisar de um?


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o Claude como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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