Quando até a compra vira ilusão: a economia da dopamina

Há um ano atrás, escrevi uma letra chamada Espelho Rachado. À primeira vista, ela parecia tratar do abuso das cirurgias plásticas. Mas, na verdade, nunca foi sobre bisturis. Era sobre pessoas que tentam remodelar o exterior enquanto continuam carregando o mesmo vazio por dentro.

Hoje, ao ler sobre um fenômeno crescente — aplicativos que simulam compras apenas para proporcionar a sensação de satisfação, sem que nenhum produto seja adquirido — tive a impressão de estar reencontrando aquela mesma música.

Mudou apenas o cenário.

Antes, modificava-se o rosto.

Agora, modifica-se a experiência.

O vazio, entretanto, permanece exatamente onde sempre esteve.

Vivemos uma época curiosa. Durante séculos, as pessoas trabalhavam para comprar aquilo de que precisavam. Depois passaram a comprar também aquilo que desejavam. Agora, algumas sequer precisam adquirir alguma coisa. Basta percorrer o ritual da compra: escolher um produto, colocá-lo no carrinho, concluir um pedido fictício e experimentar, por alguns instantes, a expectativa da recompensa.

O objeto deixou de ser importante.

O prazer passou a residir na antecipação.

Essa transformação diz muito sobre nossa sociedade.

As empresas aprenderam algo que a neurociência vem estudando há décadas: nosso cérebro responde intensamente às expectativas. A dopamina não é apenas o neurotransmissor do prazer, mas também da antecipação, da curiosidade e da motivação. Em outras palavras, muitas vezes sentimos mais excitação esperando algo do que efetivamente desfrutando desse algo.

Não por acaso, as plataformas digitais foram se tornando especialistas em fabricar expectativas.

Notificações.

Curtidas.

Vídeos curtos.

Rolagem infinita.

Jogos.

Apostas.

E, agora, compras que nunca acontecerão.

Cada inovação parece menos preocupada em entregar algo útil do que em manter nosso cérebro permanentemente esperando pela próxima pequena recompensa. Viciados sentem o mesmo.

É a economia da dopamina.

Mas talvez o problema seja ainda mais profundo.

Durante a maior parte da história humana, nossos desejos encontravam limites impostos pela realidade. Era preciso plantar antes de colher. Trabalhar antes de consumir. Esperar antes de receber.

A tecnologia eliminou muitos desses intervalos — o que, em inúmeros aspectos, representa um extraordinário progresso.

O problema começou quando percebemos que também era possível eliminar a própria realidade.

Hoje podemos manter conversas com pessoas que nunca conheceremos.

Colecionar milhares de seguidores que jamais apertarão nossa mão.

Sentir reconhecimento através de números.

Experimentar relacionamentos mediados por algoritmos.

E até comprar produtos que jamais chegarão à nossa casa.

A experiência passa a valer mais do que o acontecimento.

O símbolo passa a substituir a realidade.

Não há nada de errado em apreciar tecnologia, conforto ou entretenimento. Seria absurdo defender um retorno romântico ao passado. O desafio está em compreender quando essas ferramentas deixam de ampliar nossa vida para começar a substituí-la.

A cirurgia plástica, quando indicada, pode devolver autoestima.

As redes sociais podem aproximar pessoas.

O comércio eletrônico tornou a vida muito mais prática.

A inteligência artificial pode democratizar o conhecimento.

Nada disso é, por si só, um problema.

A questão surge quando essas ferramentas deixam de responder às nossas necessidades e passam a fabricar necessidades para continuar capturando nossa atenção.

Esse talvez seja o traço mais marcante da economia contemporânea.

Já não basta vender produtos.

É preciso vender emoções.

Experiências.

Pertencimento.

Status.

Expectativas.

Até mesmo ilusões.

Nesse contexto, lembro-me de “Espelho Rachado”. A música dizia que nenhuma plástica seria capaz de modificar uma alma que continua em conflito consigo mesma.

Os aplicativos de compras fictícias parecem contar exatamente a mesma história.

Não adianta trocar o espelho.

Não adianta trocar o rosto.

Não adianta trocar o carrinho de compras.

Nenhum deles preencherá um vazio cuja origem não está na aparência nem no consumo, mas na maneira como construímos nossa relação conosco, com os outros e com o mundo.

Talvez o maior desafio do século XXI não seja produzir inteligências artificiais cada vez mais sofisticadas.

Será aprender a distinguir aquilo que realmente nos faz viver daquilo que apenas simula a sensação de estarmos vivos.

Porque existe uma enorme diferença entre sentir uma emoção…

…e viver uma experiência.

A primeira pode ser produzida por um algoritmo.

A segunda ainda depende de sermos plenamente humanos.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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