Quando o Humano Começa a Parecer com a Máquina

Outro dia, um ouvinte do Não Custa Pensar fez uma crítica que, confesso, me deixou pensando.

Depois de dar uma rápida olhada no blog, ele disse que os textos pareciam ter sido gerados por inteligência artificial, e não apenas produzidos com auxílio dela.

A observação veio acompanhada de uma conclusão bastante razoável: se os textos podem ser produzidos pelo GPT, por que alguém deveria ler os meus? Afinal, bastaria acessar a ferramenta e obter a mesma informação — talvez até mais.

É uma crítica difícil de rebater.

E talvez seja justamente por isso que ela seja tão interessante.

O problema não é a IA escrever

Não há nada particularmente surpreendente no fato de uma inteligência artificial conseguir produzir um texto coerente.

Ela foi criada, entre outras coisas, para fazer exatamente isso.

O que deveria nos preocupar é outra coisa: por que tantos textos produzidos por seres humanos começam a parecer textos produzidos por IA?

A questão muda completamente de figura.

Durante muito tempo, tememos que as máquinas substituíssem os seres humanos.

Talvez estejamos diante de algo mais sutil.

Talvez as máquinas não precisem nos substituir.

Talvez nós simplesmente comecemos a imitá-las.

A estética da resposta perfeita

Uma das características mais marcantes dos textos produzidos por IA é a sua capacidade de organizar o pensamento.

Introdução.

Contextualização.

Três argumentos.

Uma ponderação.

Uma conclusão equilibrada.

Tudo muito claro.

Tudo muito organizado.

Tudo muito razoável.

E esse é justamente o problema.

A vida humana não é assim.

Nós somos contraditórios. Mudamos de opinião. Começamos uma frase sem saber exatamente onde ela vai terminar. Misturamos uma lembrança de infância com um argumento filosófico. Fazemos uma associação absurda que, por algum motivo, parece fazer sentido. Usamos uma palavra inadequada porque é justamente aquela palavra que nos veio à cabeça.

Às vezes somos brilhantes.

Às vezes somos idiotas.

Frequentemente somos as duas coisas na mesma conversa.

Talvez seja isso que chamamos de humanidade.

A IA, ao contrário, tem uma tendência natural à organização.

E nós, fascinados por sua capacidade de produzir textos rápidos, claros e bem estruturados, podemos começar a considerar essa organização um modelo de boa escrita.

É aí que surge o paradoxo.

A máquina aprende a escrever como o humano enquanto o humano aprende a escrever como a máquina.

Mas onde está o autor?

A pergunta mais importante, portanto, talvez não seja:

“Este texto foi escrito por IA?”

Talvez devêssemos perguntar:

“Onde está o autor neste texto?”

Porque utilizar uma ferramenta não significa necessariamente terceirizar o pensamento.

Eu posso utilizar uma calculadora sem terceirizar a matemática.

Posso utilizar um editor de texto sem terceirizar a minha história.

Posso consultar uma enciclopédia sem entregar a ela a responsabilidade pelo que penso.

E posso conversar com uma inteligência artificial sem necessariamente transformar aquilo que ela produz em minha opinião.

A ferramenta pode ajudar a pesquisar.

Pode encontrar informações que eu desconhecia.

Pode apresentar argumentos que eu não havia considerado.

Pode apontar contradições no meu raciocínio.

Pode até me dizer que estou errado.

Mas existe uma diferença fundamental entre produzir uma resposta e ter uma pergunta.

A pergunta nasce de uma inquietação.

E inquietações continuam sendo uma das coisas mais humanas que conhecemos.

O perigo da terceirização do pensamento

Existe, porém, um risco real.

Se começarmos a utilizar a IA não para ampliar nosso pensamento, mas para substituí-lo, a consequência poderá ser uma espécie de terceirização intelectual.

Não precisaremos mais escrever.

Depois, talvez não precisemos mais pesquisar.

Em seguida, talvez não precisemos mais comparar informações.

E, finalmente, talvez nem precisemos mais formular perguntas.

Bastará pedir:

“Explique.”

“Resuma.”

“Decida.”

“Escreva.”

“Conclua.”

E pronto.

Teremos uma resposta.

Só não teremos necessariamente pensado.

Esse talvez seja o verdadeiro problema da inteligência artificial.

Não que ela pense por nós.

Mas que nós descubramos como é confortável não pensar.

E se o leitor tiver razão?

Voltemos, então, à crítica daquele ouvinte.

“Eu também posso acessar o GPT e ter a mesma informação.”

Sim.

Pode.

E isso é extraordinariamente importante.

Porque significa que informação deixou de ser um diferencial suficiente.

Durante séculos, quem possuía acesso ao conhecimento possuía poder.

Bibliotecas eram raras.

Livros eram caros.

Especialistas eram poucos.

A informação estava concentrada.

Agora estamos caminhando para uma situação completamente diferente.

A informação está praticamente disponível para qualquer pessoa com acesso à internet e a uma inteligência artificial.

Então, se o Não Custa Pensar simplesmente entregar informações que qualquer pessoa poderia obter perguntando ao GPT, talvez o ouvinte esteja certo.

Nesse caso, o projeto não teria muito sentido.

Mas existe uma alternativa.

Em vez de competir com a máquina naquilo que ela faz melhor — organizar e disponibilizar informação — podemos fazer aquilo que talvez continue sendo mais interessante:

formular perguntas que valha a pena fazer.

Conectar assuntos que normalmente aparecem separados.

Desconfiar das respostas fáceis.

Questionar aquilo que parece óbvio.

Introduzir uma perspectiva.

Discordar.

Provocar.

E, principalmente, admitir quando não sabemos.

Talvez eu deva sair de cena

E aqui chegamos à parte em que o título poderia ser levado literalmente.

Se os textos estão tão “com cara de IA”, talvez eu devesse mesmo me apartar do cenário.

Deixar o GPT escrever tudo.

Ele certamente faria isso mais rápido.

Talvez escrevesse melhor.

Talvez cometesse menos erros.

Talvez organizasse melhor os argumentos.

E provavelmente produziria conclusões mais elegantes.

Só haveria um pequeno problema.

Ele não teria motivo algum para escrever aquele texto.

Não teria vivido as experiências que deram origem às perguntas.

Não teria acumulado as contradições que alimentam determinadas inquietações.

Não teria passado décadas observando pessoas, organizações, tecnologia, política, sociedade e a própria transformação do mundo.

Não teria uma razão pessoal para perguntar:

“Por que fazemos isso?”

“Por que acreditamos naquilo?”

“Por que continuamos repetindo esse comportamento?”

“Será que estamos realmente melhorando?”

A IA pode ajudar a construir o texto.

Mas a pergunta precisa vir de algum lugar.

E talvez seja aí que ainda esteja o autor.

A imperfeição como assinatura

Talvez, então, tenhamos que aprender uma nova forma de escrever na era da inteligência artificial.

Uma escrita que não esconda necessariamente a utilização da ferramenta, mas que também não esconda o ser humano que está por trás dela.

Talvez precisemos preservar justamente aquilo que a IA tende a eliminar:

a hesitação,

a contradição,

a dúvida,

o humor,

a memória,

a experiência,

a opinião impopular,

a frase que poderia ter sido melhor,

a ideia que ainda não está completamente pronta.

Porque talvez a imperfeição não seja um defeito da comunicação humana.

Talvez seja sua assinatura.

Um texto perfeitamente organizado pode ser excelente.

Mas um texto que nos faz perceber que existe alguém pensando do outro lado da página pode ser muito mais interessante.

No fim, a pergunta é outra

A discussão sobre inteligência artificial costuma ser apresentada como uma disputa:

homem versus máquina.

Talvez seja uma simplificação.

A verdadeira questão pode ser:

o que queremos continuar fazendo como seres humanos depois que as máquinas aprenderam a fazer tantas coisas que antes eram exclusivamente nossas?

Se uma IA consegue escrever um texto, ótimo.

Se consegue pesquisar em segundos o que levaríamos horas para descobrir, melhor ainda.

Se consegue nos ajudar a organizar ideias, encontrar contradições e enxergar relações que não percebemos, temos uma ferramenta extraordinária nas mãos.

Mas isso não elimina a necessidade de pensar.

Talvez a torne ainda maior.

Porque, quando qualquer pessoa puder obter uma resposta instantânea para quase qualquer pergunta, a pergunta que escolhermos fazer passará a importar muito mais do que a resposta que recebermos.

E talvez seja justamente aí que ainda exista espaço para um projeto chamado Não Custa Pensar.

Mesmo que, às vezes, alguém olhe para seus textos e diga:

“Isso parece ter sido escrito por uma IA.”

Nesse caso, talvez a resposta mais honesta seja:

“Pode até ser.

Mas a pergunta que levou até ele ainda é totalmente minha.”

E, enquanto ainda houver alguém fazendo perguntas, talvez ainda haja alguma esperança de que a máquina não tenha vencido.

Ou, pior:

de que nós tenhamos desistido de pensar antes mesmo de ela precisar vencer.

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