Há algo profundamente errado em um país que só descobre que seus cursos são ruins depois que milhares de estudantes já passaram por eles — e depois que esses estudantes já se transformaram em profissionais atuando sobre a vida dos outros.
O debate recente em torno do Enamed expôs uma ferida antiga: a expansão desordenada de cursos de medicina no Brasil sem a devida fiscalização prévia da qualidade mínima necessária para formar profissionais aptos. Quando professores da USP afirmam que “não adianta refazer prova se há lugares que não têm laboratório de anatomia”, não estão fazendo retórica acadêmica — estão descrevendo um colapso institucional.
O problema não é a avaliação. O problema é o momento em que ela acontece.
O aluno como vítima institucional
O estudante não é apenas um “consumidor mal informado”. Ele é um cidadão que confia — legitimamente — que o Estado só autoriza cursos que atendam a padrões mínimos de qualidade. Quando essa premissa falha, o prejuízo não é abstrato: é financeiro, emocional, profissional e, muitas vezes, irreversível.
Não existe “recuperação tardia” para anos de formação prática malfeita.
Não existe exame que substitua um hospital-escola inexistente.
Não existe prova que compense a ausência de professores qualificados ou de infraestrutura básica.
O aluno paga por uma promessa institucional que não se cumpre — e, ao final, ainda carrega o estigma de um desempenho insuficiente que não foi integralmente causado por ele.
O Estado que fiscaliza depois do estrago
Ao permitir que cursos operem sem laboratórios adequados, sem campos de prática suficientes e sem estrutura docente sólida, o Estado abdica de sua função reguladora essencial. A fiscalização “a posteriori” é confortável para a burocracia, mas cruel para a sociedade.
Autorizar primeiro e avaliar depois não é política pública: é terceirização do risco.
O risco é jogado sobre o estudante.
O dano é jogado sobre o cidadão.
Quando o Estado age apenas depois do desastre — reduzindo vagas, aplicando sanções ou criando novos exames —, ele apenas administra os escombros de uma omissão anterior.
O cidadão como vítima final
O problema não termina no diploma malformado. Ele chega ao consultório, ao hospital, à emergência. O cidadão comum, que nunca escolheu aquela faculdade, que nunca lucrou com aquela mensalidade, é quem “paga o pato” ao ser atendido por profissionais que não tiveram acesso à formação adequada.
Não se trata de atacar médicos ou estudantes. Trata-se de reconhecer que profissionais ruins não surgem do nada — eles são produzidos por sistemas permissivos, por regulações frouxas e por decisões políticas que priorizam números e expansão em detrimento de qualidade e responsabilidade.
Um pacto social rompido
Educação superior, especialmente em áreas críticas como a saúde, é parte do pacto social. Quando o Estado autoriza cursos sem garantir padrões mínimos, ele rompe esse pacto em três níveis:
- Trai o estudante, que confiou na validação institucional.
- Engana a sociedade, que presume competência técnica.
- Erosiona a própria ideia de responsabilidade pública.
Avaliar é necessário. Fiscalizar é indispensável. Mas fiscalizar depois é tarde demais.
Se o país deseja médicos melhores, precisa começar onde sempre evitou: na autorização responsável, na fiscalização prévia rigorosa e na coragem política de dizer “não” a cursos que jamais deveriam ter sido oferecidos.
Todo o resto é maquiagem estatística — e o preço dela continua sendo pago por quem não teve escolha.
Educação precária, analfabetismo funcional e poder: o mesmo mecanismo, em escalas diferentes
O que o debate sobre a formação médica revela não é apenas uma falha setorial, mas um padrão estrutural já conhecido na história da educação brasileira: a produção sistemática de déficits formativos como instrumento indireto de poder.
Desde a escravidão, passando pelo Império, pela República Velha e chegando ao presente, o país convive com um modelo educacional que expande o acesso formal sem garantir, de fato, o acesso ao conhecimento. O analfabetismo funcional — aquele em que o indivíduo “passa” pelo sistema sem dominar plenamente leitura, interpretação, raciocínio crítico e autonomia intelectual — não é um acidente. Ele é funcional.
Funcional para quem governa sem ser questionado.
Funcional para mercados que precisam de diplomas, não de pensamento.
Funcional para sistemas que confundem certificação com formação.
O que ocorre hoje com cursos superiores mal fiscalizados, inclusive em áreas críticas como a medicina, é a versão sofisticada de um velho mecanismo: oferecer o símbolo da inclusão enquanto se retira a substância da educação.
Do analfabetismo funcional ao profissional funcionalmente precário
Nos ensaios sobre analfabetismo real e funcional, já se demonstrou como o Estado brasileiro historicamente tolera — e por vezes incentiva — a permanência de cidadãos que sabem “o suficiente para obedecer”, mas não o bastante para questionar estruturas, contratos, políticas públicas ou assimetrias de poder.
No ensino superior, o mecanismo se repete com outra roupagem: o estudante aprende o suficiente para obter um diploma, mas não necessariamente para exercer sua profissão com excelência, autonomia e segurança.
A precarização da formação profissional não é apenas pedagógica — é política.
O poder que se esconde na omissão
Quando o Estado falha na fiscalização prévia de cursos, ele não apenas se omite: ele redistribui riscos.
O risco deixa de ser institucional e passa a ser individual.
O estudante assume a dívida, o tempo perdido e o estigma.
O cidadão assume o risco do mau atendimento.
E o sistema preserva sua aparência de normalidade.
Essa lógica dialoga diretamente com outros campos já analisados: a naturalização do empurra-empurra estatal, a transferência constante de responsabilidades do poder público para o indivíduo e a erosão silenciosa do pacto social.
O empurra-empurra estatal como método: quando ninguém é responsável, todos pagam
O caso dos cursos de medicina mal fiscalizados não é uma exceção administrativa, mas uma expressão exemplar do empurra-empurra estatal: um modelo em que responsabilidades são fragmentadas, diluídas e adiadas até que o prejuízo recaia sobre quem tem menos poder de reação.
O MEC autoriza.
A instituição oferece.
O estudante confia.
A avaliação vem depois.
A sanção é tardia.
E o dano já está consumado.
Quando o fracasso aparece, ninguém “errou”. Houve apenas “processos”, “indicadores” e “aperfeiçoamentos”.
A cronologia invertida da responsabilidade
A responsabilidade nunca está no início do processo — sempre no final.
E quando chega ao final, já não serve para reparar, apenas para justificar.
A fiscalização vira ritual.
A avaliação vira álibi.
E o cidadão vira estatística.
O risco como política implícita
O Estado não elimina o risco — ele o redistribui.
Na burocracia, o risco é do cidadão.
Na educação, do estudante.
Na saúde, do paciente.
O empurra-empurra estatal não é desorganização: é método.
Quando o pacto social vira protocolo
Quando o Estado falha antes, o indivíduo absorve depois e o sistema se preserva.
Não há correção futura para uma formação malfeita.
Não há recurso contra anos perdidos.
Não há indenização simbólica para a confiança traída.
E assim se naturaliza o inaceitável — até que ele pareça apenas “mais um problema de gestão”.
Síntese
A precarização da educação, o analfabetismo funcional, o empurra-empurra estatal e a erosão do pacto social formam um mesmo sistema de funcionamento: expansão sem garantia, inclusão sem emancipação, responsabilidade sem responsável.
Quando o Estado falha antes, todos pagam depois.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
