Responsabilidade sem futuro e o colapso do rito de passagem
Há um discurso recorrente — confortável, moralmente simples e profundamente enganoso — que atravessa gerações: “os jovens de hoje não querem nada”. Normalmente ele vem acompanhado de uma lembrança autobiográfica heroica: trabalho precoce, dificuldades superadas, sacrifícios que teriam forjado caráter. O problema não é a experiência individual. O problema é transformá‑la em régua universal, ignorando que o mundo que formava adultos simplesmente não existe mais.
A crítica fácil à juventude contemporânea não é apenas injusta; ela funciona como mecanismo de ocultação estrutural. Ao responsabilizar o indivíduo jovem por sua condição, absolve‑se o sistema que bloqueou sua entrada na vida adulta.
Este ensaio parte de uma hipótese simples e incômoda: a chamada “geração ansiosa” não é produto de excesso de liberdade, mas de uma juventude suspensa — cobrada como adulta e tratada como descartável.
1. Nostalgia não é argumento
Quando alguém afirma “eu comecei a trabalhar aos 15 anos”, raramente completa a frase com o contexto que tornava isso possível: crescimento econômico, empregos de entrada abundantes, custo de vida compatível com salários iniciais, menor exigência credencialista e uma sociedade que oferecia ritos claros de passagem.
O erro lógico é brutal: comparar trajetórias individuais do passado com estruturas sistêmicas do presente. O jovem de ontem enfrentava dificuldades reais, mas enfrentava um mundo que oferecia portas. O jovem de hoje enfrenta dificuldades em um mundo que ergue muros.
Nostalgia moralizada é uma forma elegante de negar a realidade.
2. Kliksberg e a juventude bloqueada
Bernardo Kliksberg, no capítulo 8 de As pessoas em primeiro lugar, desmonta o mito da juventude improdutiva ao apresentar um quadro estrutural da América Latina:
- dificuldade extrema de acesso ao primeiro emprego;
- precarização radical do trabalho jovem;
- educação formal desconectada do mundo real;
- ausência de políticas de transição entre escola e trabalho.
O resultado não é apatia. É deslocamento existencial.
O jovem não está fora do sistema por rejeição; está fora por exclusão. E quando uma sociedade impede sistematicamente sua juventude de ingressar no mundo produtivo, ela não cria cidadãos em espera — cria sujeitos sem horizonte.
É nesse vácuo que surge o fenômeno dos chamados nem‑nem: nem trabalham, nem estudam. Transformá‑los em categoria moral é conveniente. Reconhecê‑los como categoria política seria perigoso demais.
3. O nem‑nem como produto lógico
O jovem nem‑nem não é um desvio. Ele é uma resposta racional a um sistema irracional.
Quando o estudo não garante inserção, quando o trabalho disponível é precarizado, quando o erro não é tolerado e quando o futuro parece uma promessa publicitária vencida, a retirada deixa de ser patologia e passa a ser autopreservação.
A sociedade contemporânea exige do jovem:
- maturidade emocional;
- responsabilidade financeira;
- autocontrole psicológico;
- disciplina produtiva.
Mas oferece:
- instabilidade permanente;
- subemprego sem dignidade;
- endividamento precoce;
- competição sem regras claras.
Isso não é formação de caráter. É produção de ansiedade.
4. Ansiedade não é fraqueza — é lucidez
A chamada “geração ansiosa” é frequentemente analisada sob lentes psicológicas individuais: excesso de redes sociais, fragilidade emocional, superproteção familiar. Tudo isso existe. Mas é insuficiente.
A ansiedade contemporânea é, em grande medida, uma resposta lúcida a um mundo sem promessa crível.
Ansiedade surge quando:
- não há previsibilidade;
- o esforço não se converte em progresso;
- o tempo passa sem marcos de avanço;
- o futuro deixa de ser narrável.
O jovem ansioso não está com medo de viver. Está percebendo — talvez antes dos adultos — que o contrato social foi rompido.
5. Responsabilidade exige porta de entrada
Não existe responsabilidade abstrata. Ela se constrói na prática, no confronto com o real, no direito ao erro, na experiência de consequência.
Sociedades que formam adultos oferecem:
- empregos de entrada reais;
- aprendizado situado, não apenas credenciais;
- erro como parte do processo;
- progressão possível, ainda que lenta.
Sociedades que apenas cobram produzem cinismo, ressentimento ou desistência.
Exigir responsabilidade de quem nunca teve chance de exercê‑la não é educação. É crueldade moral travestida de meritocracia.
6. Delinquência, desalento e controle
Kliksberg alerta para a consequência inevitável da juventude bloqueada: aumento da delinquência, da economia informal predatória e da violência.
Não por falha moral, mas por ausência de pertencimento.
Uma juventude sem futuro é terreno fértil para:
- radicalismos;
- economias ilícitas;
- captura por discursos autoritários;
- controle repressivo como resposta tardia.
Primeiro a sociedade fecha as portas. Depois constrói prisões. E chama isso de ordem.
7. Conclusão — a juventude como espelho incômodo
A juventude não é o problema. Ela é o termômetro.
Quando jovens adoecem em massa, quando recuam, quando se desmotivam ou se revoltam, o que está em crise não é uma geração — é o modelo de sociedade que a antecedeu.
Responsabilidade sem futuro não forma adultos. Forma corpos cansados e mentes ansiosas.
Uma sociedade que impede seus jovens de começar não tem legitimidade para exigir que eles cheguem.
Enquanto o rito de passagem continuar bloqueado, a juventude seguirá suspensa — e a ansiedade continuará sendo não um desvio, mas um diagnóstico preciso do nosso tempo.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
