Poucas expressões dizem tanto — e explicam tão pouco — quanto o rótulo nem‑nem: jovens que nem trabalham, nem estudam. A força da expressão está justamente em sua ambiguidade. Ela descreve um estado, mas sugere um defeito. Nomeia uma condição social, mas a trata como falha individual. O nem‑nem tornou‑se um atalho linguístico perfeito para retirar o problema do campo político e empurrá‑lo para o campo moral.
Este ensaio propõe uma inversão necessária: o nem‑nem não é uma anomalia comportamental, mas uma categoria política produzida por escolhas estruturais. Não é um desvio do sistema. É um de seus resultados mais previsíveis.
1. Quando a linguagem governa
Toda sociedade escolhe cuidadosamente as palavras que usa para nomear seus impasses. O termo nem‑nem cumpre três funções silenciosas:
- Despersonaliza — o jovem vira estatística;
- Despolitiza — o fenômeno parece natural;
- Moraliza — a culpa se desloca para o indivíduo.
Não se fala em jovens excluídos, bloqueados ou impedidos. Fala‑se em jovens que “não querem”. A linguagem faz o trabalho sujo antes mesmo que o debate comece.
2. O fim do rito de passagem
Durante grande parte do século XX, trabalho e estudo não eram apenas atividades econômicas ou educacionais. Eram ritos de passagem. Marcavam a entrada simbólica e prática na vida adulta.
O que acontece quando esses ritos deixam de funcionar?
- quando o estudo não leva ao trabalho;
- quando o trabalho não garante dignidade;
- quando a autonomia é adiada indefinidamente.
Surge uma juventude em suspensão: biologicamente adulta, socialmente infantilizada e economicamente descartável. O nem‑nem é o nome dado a esse limbo.
3. Nem‑nem não é escolha — é posição
É um erro grave interpretar o nem‑nem como decisão individual. Na maioria dos casos, trata‑se de uma posição estrutural:
- fora do mercado formal;
- fora de sistemas educacionais significativos;
- fora de políticas públicas eficazes;
- fora da narrativa de futuro.
Essa posição não é neutra. Ela produz efeitos psíquicos, sociais e políticos profundos. Uma sociedade que empurra milhões de jovens para fora de seus mecanismos de integração não está apenas falhando — está produzindo instabilidade.
4. A falsa pedagogia da culpa
O discurso dominante insiste: basta “querer”, “se esforçar”, “ter disciplina”. Essa pedagogia da culpa cumpre uma função ideológica clara: dispensa reformas estruturais.
Responsabilidade sem oportunidade não educa. Ressentimento sem horizonte não mobiliza. O resultado é previsível:
- desmotivação crônica;
- economia informal predatória;
- aumento da violência;
- captura por discursos autoritários que prometem pertencimento.
Quando o sistema fecha as portas, outros sistemas — legais ou não — se apresentam.
5. O nem‑nem como risco sistêmico
Ignorar o nem‑nem como categoria política é um erro estratégico. Jovens sem inserção:
- não investem no futuro coletivo;
- não confiam nas instituições;
- não se reconhecem no pacto social;
- tornam‑se população flutuante do ponto de vista democrático.
Não se trata de ameaça moral, mas de fragilidade institucional. Democracias não sobrevivem quando uma geração inteira cresce sem pertencimento real.
6. Controle substituindo inclusão
Historicamente, sociedades que falham em integrar sua juventude recorrem a mecanismos de controle:
- policiamento ampliado;
- encarceramento em massa;
- vigilância permanente;
- discursos de “lei e ordem”.
É sempre mais barato politicamente controlar do que incluir — até que o custo social se torne insustentável. O nem‑nem é o prenúncio desse ponto de ruptura.
7. Conclusão — o espelho que não queremos ver
O nem‑nem não é o outro. É o espelho.
Ele reflete uma sociedade que exige produtividade sem oferecer percurso, maturidade sem permitir erro, responsabilidade sem garantir começo.
Transformar o nem‑nem em categoria moral é confortável. Reconhecê‑lo como categoria política é inevitável — se ainda houver compromisso com democracia, coesão social e futuro.
Enquanto jovens continuarem fora do jogo, o jogo continuará instável. E nenhuma retórica de esforço individual compensará um sistema que desistiu de integrar antes de exigir.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
