Quando a Vítima é Coletiva

A mensagem chega no celular.
Um pedido urgente.
Um boleto. Um Pix. Um link.

Em minutos, a conta esvazia.
Em horas, a vergonha chega.
Em dias, instala-se a sensação de ter sido violado por um desconhecido que jamais será encontrado.

Milhões de brasileiros já passaram por isso.
Milhões ainda passarão.

Não se trata mais de episódios isolados.
Trata-se de um modo de vida.

Vivemos em uma sociedade onde atender o telefone pode ser perigoso,
onde responder uma mensagem pode ser arriscado,
onde confiar se tornou um ato de coragem.

Os golpes digitais, financeiros e cotidianos tornaram-se o crime perfeito de uma sociedade que perdeu sua confiança básica.

E quando a confiança morre, a vítima deixa de ser individual.
A vítima passa a ser coletiva.


A normalização do predador

Durante muito tempo, o criminoso foi imaginado como exceção.
Um desvio.
Um corpo estranho na ordem social.

Essa imagem já não corresponde à realidade.

O que vemos hoje é a multiplicação de indivíduos que vivem de explorar outros — sem violência física, sem armas, sem confronto direto.
Apenas com manipulação, engenharia emocional e oportunismo sistemático.

Golpes tornaram-se:

  • altamente lucrativos
  • de baixo risco
  • socialmente difusos
  • tecnologicamente acessíveis
  • moralmente racionalizados

Para muitos, deixaram de ser “crime grave” e passaram a ser apenas “forma de ganhar dinheiro”.

Isso deveria nos assustar mais do que assusta.

Porque revela uma mutação silenciosa:
o surgimento do predador social cotidiano.


A sociedade que os produz

Nenhuma sociedade produz esse tipo de comportamento em escala sem contribuir para ele.

Ambientes marcados por:

  • desigualdade crônica
  • humilhação cotidiana
  • ausência de horizonte
  • abandono educacional
  • violência normalizada
  • impunidade seletiva

tendem a gerar indivíduos que crescem sem qualquer sentimento real de pertencimento.

Quem nunca se sentiu parte dificilmente se sente responsável pelo todo.

Quem cresceu cercado por escassez e desprezo aprende cedo que:

o mundo não é comunidade — é território.

Nesse território, alguns resistem.
Outros tentam sobreviver.
Outros concluem que a única forma de não ser presa é tornar-se predador.

A sociedade brasileira, como muitas outras profundamente desiguais, não apenas convive com essa dinâmica.
Ela a produz diariamente.

Ignorar isso é intelectualmente confortável.
Mas é também uma forma de conivência.


Compreender não é absolver

Existe, porém, uma linha que não pode ser apagada.

Em todos os ambientes degradados existem pessoas que não escolhem destruir os outros.

Elas trabalham.
Criam filhos.
Ajudam vizinhos.
Recusam-se a explorar.

A existência dessas pessoas prova algo essencial:

o contexto influencia, mas não elimina a escolha.

Sem essa constatação, toda ideia de responsabilidade desaparece.
E, sem responsabilidade individual, não há sociedade possível — apenas um amontoado de justificativas.

Compreender a origem social de um comportamento não o torna moralmente aceitável.

Explicar não é inocentar.
Contextualizar não é absolver.
Analisar não é legitimar.

Uma sociedade que perde essa distinção perde também a capacidade de se proteger.


A vítima coletiva

Os golpes contemporâneos não atingem apenas contas bancárias.

Eles corroem algo muito mais profundo:
a confiança mínima necessária para viver em comunidade.

Cada fraude bem-sucedida produz:

  • mais medo
  • mais isolamento
  • mais desconfiança
  • mais cinismo

E, como quase sempre, quem mais sofre são os menos protegidos:

  • idosos
  • trabalhadores de baixa renda
  • pequenos comerciantes
  • pessoas solitárias
  • cidadãos comuns

Ou seja:
os mesmos que já vivem em posição vulnerável.

A desigualdade produz parte dos criminosos, mas também produz a maioria das vítimas.

Uma sociedade que permite essa dinâmica passa a viver em estado de tensão difusa.

Todos suspeitam de todos.
Todos se protegem de todos.
Todos se afastam.

Quando isso acontece, a vítima deixa de ser apenas quem perdeu dinheiro.
A vítima passa a ser a própria possibilidade de convivência social.


Nem todos voltarão

Sociedades civilizadas apostam — corretamente — na recuperação.

Educação.
Reinserção.
Segundas chances.

Muitos respondem a essa aposta.
Reconstruem-se.
Reintegram-se.
Mudam.

Mas não todos.

Há indivíduos que:

  • reincidem continuamente
  • aperfeiçoam formas de dano
  • manipulam sem remorso
  • destroem vidas em escala
  • veem pessoas apenas como oportunidade

Negar a existência desse grupo por conforto ideológico não o faz desaparecer.

Toda sociedade enfrenta, em algum grau, a realidade de indivíduos altamente predatórios e persistentemente destrutivos.

O que fazer quando a recuperação falha repetidamente?

Essa pergunta raramente é enfrentada com honestidade.

Prefere-se o silêncio.
Ou slogans.
Ou simplificações.

Mas ela permanece.


O direito de defesa de uma sociedade imperfeita

Nenhuma sociedade é plenamente justa.
Nenhuma distribui oportunidades de forma equitativa.
Nenhuma oferece as mesmas condições a todos.

Ainda assim, milhões de pessoas vivem sem ferir deliberadamente os outros.

Elas não podem ser abandonadas em nome de explicações abstratas.

Uma sociedade pode ter falhado em prevenir.
Pode ter falhado em incluir.
Pode ter falhado em educar.
Mas não pode falhar em proteger aqueles que não escolheram destruir.

Compreender a produção social do crime não elimina o direito de defesa coletiva.

Romantizar predadores em nome da compaixão abstrata é crueldade com as vítimas.
Ignorar a origem social da violência é garantir sua continuidade.

Entre essas duas distorções existe um território difícil:
o da lucidez moral.


Princípios para tempos desconfortáveis

Algumas ideias podem servir como balizas em meio à confusão:

Responsabilidade individual não desaparece em contextos adversos.
A existência de quem resiste prova que a escolha permanece.

Responsabilidade coletiva não pode ser negada.
Sociedades que toleram exclusão produzem parte de sua própria violência.

Proteger a população — especialmente os mais vulneráveis — é obrigação básica de qualquer ordem social.

Romantizar o crime é abandonar as vítimas.
Mas ignorar suas causas é garantir sua reprodução.

Reabilitar deve ser prioridade sempre que possível.
Abandonar recuperáveis é miopia social.

Mas negar a existência de indivíduos persistentemente destrutivos é ingenuidade perigosa que custa caro aos inocentes.


O ponto em que estamos

Vivemos em uma sociedade que produz, ao mesmo tempo, vítimas e predadores.

Produz indivíduos que jamais se sentiram parte de algo maior.
Produz cidadãos que vivem com medo permanente.
Produz ambientes onde explorar o outro parece, para alguns, a única forma de não ser explorado.

Se nada mudar, continuaremos nesse ciclo:

mais exclusão → mais ressentimento → mais predadores → mais medo → mais isolamento → menos confiança → mais exclusão.

Em algum ponto, a convivência social se torna apenas aparência.
Por baixo dela, instala-se a lógica silenciosa do todos contra todos.

Talvez a pergunta mais incômoda não seja o que fazer com aqueles que já se tornaram predadores.

Mas sim:

quanto tempo uma sociedade consegue sobreviver quando um número crescente de pessoas passa a olhar o outro não como semelhante — mas como oportunidade, ameaça ou presa.

A resposta não está pronta.
Mas os sinais de esgotamento estão por toda parte.

E ignorá-los já não é apenas ingenuidade.
É escolha.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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