Manual do Cidadão Inútil — Episódio 1

O Estado que terceirizou a resposta

Houve um tempo em que o Estado respondia.

Mal, tarde, incompletamente — mas respondia.
Hoje, evoluímos.
A resposta continua existindo, porém sem o inconveniente de produzir efeitos.

Entramos na era do Estado que terceirizou a resposta.


A resposta que não mora mais aqui

O cidadão contemporâneo é uma criatura curiosa.
Ele ainda acredita que existe uma relação lógica entre:

pergunta → órgão público → resposta → solução.

Essa crença, embora comovente, tornou-se obsoleta.

O Estado moderno aperfeiçoou um modelo mais eficiente:
toda pergunta deve ser respondida por alguém que não pode respondê-la.

Você escreve a um órgão.
Ele agradece o contato, elogia sua cidadania e informa que a questão é relevante.
Em seguida, esclarece que não possui competência.

Gentilmente, indica o órgão competente.

Você escreve ao órgão competente.
Ele reconhece a importância do tema, reafirma o compromisso com a sociedade e informa que a matéria envolve outro setor.

Indica, naturalmente, o setor competente.

Após alguns ciclos, você percebe que não está mais buscando solução alguma.
Está participando de uma experiência educacional sobre geografia institucional.


O nascimento da resposta migratória

No passado, a resposta era sedentária.
Hoje, é migratória.

Ela não permanece em um órgão por muito tempo.
Desloca-se com elegância entre departamentos, secretarias, autarquias e instâncias diversas, como uma ave burocrática em busca de climas mais amenos.

Cada setor a recebe com cordialidade, oferece um breve abrigo formal e a encaminha adiante.
Nenhum a retém por tempo suficiente para gerar responsabilidade.

Assim, a resposta cumpre sua função principal:
manter-se em movimento até desaparecer.


A arte de responder sem tocar no problema

O grande avanço institucional das últimas décadas não foi tecnológico.
Foi linguístico.

Desenvolveu-se um dialeto administrativo capaz de produzir respostas extensas, detalhadas e perfeitamente inúteis.

Exemplos clássicos:

“A demanda apresentada é de grande relevância e encontra-se em análise no âmbito das competências desta unidade.”

Tradução: nada será feito.

“Sugerimos o encaminhamento ao órgão responsável pela matéria.”

Tradução: não seremos nós.

“Seu protocolo foi registrado para as providências cabíveis.”

Tradução: nenhuma providência específica foi identificada.

O cidadão recebe textos.
Parágrafos.
Fundamentações.
Links institucionais.

Tudo cuidadosamente elaborado para evitar o único elemento perigoso:
a solução.


O sistema de encaminhamento perpétuo

O Estado contemporâneo não é ineficiente.
Ele funciona exatamente como foi desenhado.

Sua principal função não é resolver demandas, mas processá-las indefinidamente.

Cada problema é convertido em protocolo.
Cada protocolo em tramitação.
Cada tramitação em encaminhamento.

É um ciclo virtuoso do ponto de vista administrativo:
nada se resolve, mas tudo circula.

E circulação é evidência de atividade.
Atividade é evidência de gestão.
Gestão é evidência de normalidade.

A máquina gira.
O cidadão gira junto.
E o problema permanece imóvel no centro, como um monumento à estabilidade institucional.


A terceirização perfeita

Terceirizar respostas é a forma mais elegante de não assumir decisões.

Não se diz “não”.
Diz-se “não aqui”.

Não se diz “não faremos”.
Diz-se “não é nossa atribuição”.

Não se diz “ninguém resolverá”.
Diz-se “outro setor poderá avaliar”.

Cada instância preserva sua imagem de eficiência e boa vontade.
A responsabilidade dissolve-se na estrutura como açúcar em café quente.

Ao final, resta apenas um rastro de comunicações educadas e nenhuma alteração na realidade.


O cidadão como elemento decorativo

Nesse ecossistema, o cidadão desempenha papel essencial:
ele inicia o processo.

Sem sua pergunta, não haveria protocolo.
Sem protocolo, não haveria encaminhamento.
Sem encaminhamento, a máquina administrativa ficaria perigosamente próxima de ter que decidir algo.

O cidadão, portanto, não é ignorado.
É integrado ao sistema como fornecedor de demandas que justificam sua própria frustração.

Ele escreve.
Recebe resposta.
Encaminha.
Recebe nova resposta.
Encaminha novamente.

Participa ativamente de um circuito em que sua principal função é manter o fluxo de mensagens que comprovam a existência de comunicação institucional.

É ouvido.
Respondido.
Registrado.
E cuidadosamente neutralizado.


Epílogo provisório

Talvez o maior triunfo organizacional do nosso tempo tenha sido a criação de um Estado que responde a tudo e resolve quase nada — sem jamais parecer omisso.

Um Estado que substituiu a decisão pela circulação.
A responsabilidade pelo encaminhamento.
A solução pela cordialidade administrativa.

Vivemos, assim, sob a proteção de um sistema altamente responsivo, no qual nenhuma pergunta fica sem resposta e nenhum problema corre o risco de ser resolvido de maneira precipitada.

Se algum dia você sentir que sua demanda desapareceu no percurso, não se preocupe.

Ela não foi ignorada.
Foi apenas terceirizada sucessivamente até atingir o ponto ideal de irrelevância.

Bem-vindo ao Manual do Cidadão Inútil.
Aqui, toda resposta existe — apenas nunca onde deveria.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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