Manual prático de como não responder ao cidadão
O Estado brasileiro não ignora o cidadão.
Ignorar seria grosseiro.
O Estado responde — e responde muito.
O problema é que a resposta evoluiu.
Hoje existe uma técnica refinada, quase acadêmica, de não responder respondendo.
Para fins didáticos, segue o manual básico que toda instituição parece receber ao assumir suas funções.
Passo 1 — Agradeça com entusiasmo
Nunca comece com negativa.
Inicie sempre assim:
“Agradecemos sua manifestação e parabenizamos pelo exercício da cidadania.”
O cidadão precisa sentir que participou de algo.
Não importa se nada será feito.
O importante é que ele se sinta ouvido antes de ser cuidadosamente neutralizado.
Passo 2 — Declare relevância abstrata
Afirme que o tema é importante.
“A matéria é de grande relevância para esta Administração.”
Isso cria a ilusão de prioridade, importância.
Jamais especifique prazo, providência ou responsável.
Relevância abstrata é segura.
Providência concreta é perigosa.
Passo 3 — Introduza a competência móvel
Agora vem o momento-chave.
Explique que a questão:
- não se insere no âmbito de atribuições da unidade;
- envolve matéria técnica específica;
- depende de instância diversa.
Jamais diga “não é conosco”.
Prefira:
“Sugerimos o encaminhamento ao órgão competente.”
O órgão competente, claro, também sugerirá outro.
Assim nasce o movimento perpétuo.
Passo 4 — Ofereça links
Nada transmite mais seriedade do que um link institucional.
Envie:
- portal eletrônico,
- legislação extensa,
- manual técnico de 200 páginas,
- telefone genérico.
O cidadão não pediu leitura complementar.
Mas receberá.
Links são a prova digital de que algo foi feito.
Mesmo que não tenha sido.
Passo 5 — Registre o protocolo
O protocolo é o troféu do cidadão moderno.
Ele não resolve.
Mas comprova que a demanda foi absorvida pela máquina.
“Sua solicitação foi registrada sob o nº 45872319.”
O número substitui a solução.
É a medalha de participação da democracia administrativa.
Passo 6 — Encerre cordialmente
Finalize com:
“Estamos à disposição.”
Nunca especifique para quê.
Disponibilidade abstrata é mais segura que compromisso real.
Observações avançadas
Em casos mais complexos, utilize a técnica da dupla remessa:
- Encaminhe ao órgão X.
- O órgão X encaminha ao Y.
- O órgão Y informa que depende de manifestação do X.
Quando o cidadão perceber, estará no ponto ideal de exaustão cívica.
Outra técnica eficaz é a resposta normativa:
“Conforme a Lei nº tal, Decreto nº tal, Resolução nº tal…”
Quanto maior a lista, menor a chance de questionamento imediato.
O cidadão não veio buscar bibliografia.
Mas receberá um sumário legislativo completo.
Resultado esperado
Após alguns ciclos, o cidadão:
- deixa de insistir;
- conclui que o problema é estrutural;
- aceita a própria irrelevância processual;
- ou escreve um artigo ácido para preservar a sanidade.
A instituição permanece intacta.
Nenhuma decisão foi tomada.
Nenhuma responsabilidade foi assumida.
Nenhum erro foi admitido.
Mas todas as mensagens foram respondidas.
Considerações finais
O grande mérito desse método é sua elegância.
Não há silêncio.
Não há confronto.
Não há negativa frontal.
Há apenas circulação contínua de textos educados, fundamentados e perfeitamente estéreis.
O cidadão sai com a sensação vaga de ter sido respeitado —
desde que respeitar signifique receber parágrafos.
E assim seguimos, em um país onde ninguém é ignorado,
mas poucos são efetivamente atendidos.
Este foi o segundo capítulo do Manual do Cidadão Inútil.
Reclamações devem ser encaminhadas ao setor competente.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
