Se a espera foi o comportamento aprendido, o crescimento foi sua justificativa técnica.
Durante décadas, repetiu-se uma fórmula simples: primeiro é preciso fazer o bolo crescer. Depois, ele será dividido.
A frase tornou-se quase um axioma do desenvolvimento nacional, associada ao período do chamado “milagre econômico” sob Delfim Netto. O crescimento acelerado dos anos 1970 parecia comprovar a tese: o país podia expandir rapidamente, industrializar-se, urbanizar-se, modernizar sua infraestrutura.
O futuro estava sendo construído.
A desigualdade, dizia-se, era efeito colateral temporário.
Era preciso tolerá-la enquanto o bolo aumentava.
Essa lógica tinha aparência racional. Economias emergentes, de fato, passam por fases de expansão desigual. A questão não era a existência do argumento. Era sua perpetuação.
O bolo cresceu — em alguns momentos de forma impressionante.
Mas a divisão foi sempre adiada para a próxima fase.
Quando a expansão desacelerava, dizia-se que ainda não era hora de repartir.
Quando voltava a acelerar, afirmava-se que era preciso consolidar antes de distribuir.
Quando crises interrompiam o ciclo, explicava-se que o esforço deveria ser redobrado.
A partilha tornava-se promessa dentro da promessa.
Nos anos 1980, a crise da dívida e a hiperinflação corroeram a crença na estabilidade. O crescimento deixou de ser contínuo e passou a ser episódico. O país entrou em uma década perdida — expressão que já revela muito sobre o imaginário nacional.
A promessa não desapareceu.
Ela foi reformulada.
Nos anos 1990, com a estabilização monetária de Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real, a esperança renasceu sob outro formato: agora o crescimento viria sustentado por responsabilidade fiscal, abertura econômica, modernização institucional.
Mais uma vez, o bolo estava prestes a crescer de forma consistente.
Nos anos 2000, o ciclo das commodities e a ampliação de políticas sociais sob Luiz Inácio Lula da Silva reacenderam a sensação de ascensão. Milhões saíram da pobreza. O consumo se expandiu. O crédito se democratizou. O discurso do país que finalmente encontrara sua trajetória voltou à cena.
O bolo crescia…
Parecia, enfim, possível dividir.
Mas o crescimento revelou-se novamente dependente de circunstâncias externas e ciclos favoráveis. Quando o contexto internacional mudou e fragilidades internas emergiram, a expansão perdeu fôlego.
O padrão repetiu-se:
euforia, consolidação parcial, desaceleração, ajuste, nova promessa.
O problema nunca foi desejar crescimento. Ele é condição necessária para qualquer projeto de desenvolvimento. O problema foi depositar nele uma expectativa quase redentora.
Como se crescer resolvesse automaticamente desigualdade estrutural, fragilidade institucional, baixa produtividade sistêmica, educação precária, concentração de renda histórica.
O crescimento virou símbolo de salvação.
E símbolos salvacionistas raramente entregam o que prometem.
Além disso, a metáfora do bolo carrega uma suposição implícita: que ele é homogêneo e facilmente repartível. Mas economias reais são mais complexas. Crescimento pode concentrar renda. Pode beneficiar setores específicos. Pode ampliar diferenças regionais. Ou seja, outros podem ficar com o bolo.
A divisão nunca foi simples questão de cortar fatias.
Enquanto isso, a espera continuava.
Era preciso crescer mais um pouco…
Modernizar mais um pouco…
Reformar mais um pouco…
O crescimento tornou-se argumento de adiamento.
E assim, a promessa econômica alimentou a cultura da espera.
Quando se observa a história recente do país, percebe-se que houve avanços reais — infraestrutura ampliada, inclusão social, estabilidade monetária conquistada. Não se trata de negar conquistas.
Mas também não se pode ignorar que a narrativa do bolo foi usada reiteradamente para postergar debates estruturais mais profundos: desigualdade persistente, reforma tributária progressiva, qualidade institucional, produtividade sistêmica, eficiência do Estado.
O bolo cresceu em ondas.
Mas nunca se tornou base estável.
E o que acontece quando a metáfora começa a falhar?
A sociedade passa a perceber que o problema talvez não seja apenas o tamanho do bolo — mas a própria arquitetura da cozinha.
Essa percepção é decisiva. Ela desloca a questão do crescimento para a estrutura.
E é justamente nesse deslocamento que o mito do futuro começa a se tensionar.
Porque se o crescimento não garante consolidação,
e se a consolidação nunca chega,
a espera deixa de ser prudência
e começa a se aproximar de exaustão.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
