Manual do Cidadão Inútil — Episódio 4

Encaminhado ao Setor Competente

Existe uma frase que deveria constar no brasão da República contemporânea:

“Encaminhado ao setor competente.”

Ela é elegante.
É técnica.
É promissora.

Ela sugere movimento.

O cidadão lê e imagina que sua demanda avançou.
Que saiu da gaveta inicial rumo ao coração decisório do Estado.
Que agora, sim, está nas mãos certas.

Mal sabe ele que acabou de ingressar na modalidade mais sofisticada de imobilidade: o deslocamento circular.

O setor competente é uma entidade metafísica.
Ele sempre existe.
Mas nunca coincide com o setor que responde.

O primeiro setor não decide porque não é competente.
O segundo não decide porque a competência é compartilhada.
O terceiro não decide porque aguarda manifestação do primeiro.

E assim nasce o movimento perpétuo administrativo. Se ao menos conseguíssimos gerar energia dele!

A genialidade do mecanismo está em sua aparência de racionalidade.

Nada foi negado.
Nada foi recusado.
Nada foi arquivado — ainda.

Tudo está “em trâmite”.

O trâmite é a esteira rolante da esperança.

O cidadão acompanha pelo número de protocolo como quem rastreia encomenda internacional.
Ele vê o objeto sair do “Setor A” e chegar ao “Setor B”.
Do “Setor B” ao “Núcleo Técnico”.
Do “Núcleo Técnico” à “Coordenação”.
Da “Coordenação” à “Assessoria”.

Em algum ponto, retorna…

Sempre retorna.

Mas agora com nova linguagem:

“Após análise preliminar, verificou-se a necessidade de complementação.”

A complementação é o reinício elegante.

O que estava completo torna-se insuficiente.
O que era claro torna-se impreciso.
O que era prova vira indício.

O cidadão, então, complementa.

Ele imprime novamente.
Ele explica novamente.
Ele anexa novamente.

O sistema agradece.

E encaminha ao setor competente.

O segredo não está na maldade.
Está na fragmentação.

Cada agente executa apenas sua fração de responsabilidade.
Ninguém tem o desenho inteiro.
Ninguém sente o peso total da decisão — porque decisão, de fato, não há.

Há circulação.

A responsabilidade diluída é o anestésico moral da burocracia moderna.

Quando tudo é competência compartilhada, nada é responsabilidade assumida.

O cidadão imagina que enfrenta uma muralha.
Na verdade, enfrenta um labirinto.

A muralha provoca confronto.
O labirinto provoca exaustão.

E o labirinto tem uma vantagem adicional:
quem se perde nele costuma culpar a si mesmo.

“Talvez eu não tenha explicado direito.”
“Talvez eu devesse ter anexado mais documentos.”
“Talvez eu devesse ter esperado mais.”

O sistema agradece novamente.

Porque o auge da eficiência institucional não é impedir o cidadão de reclamar.

É fazê-lo duvidar da própria legitimidade ao reclamar.

No final, a resposta chega.

Sempre chega.

Não como solução.
Mas como conclusão processual.

“Considerando o trâmite realizado…”

Trâmite realizado.

A expressão é magnífica.

Ela não diz que o problema foi resolvido.
Diz que o percurso foi cumprido.

O Estado contemporâneo não promete justiça.
Promete procedimento.

E procedimento, quando elevado à condição de fim em si mesmo, transforma o cidadão em figurante de um rito que ele mesmo financiou.

O Manual do Cidadão Inútil ensina então sua segunda grande lição:

Se sua demanda foi encaminhada ao setor competente, prepare-se.

Você acaba de iniciar uma viagem.

Leve água.
Leve (muita) paciência.
Leve energia.

Porque o setor competente é um lugar onde decisões vão para amadurecer indefinidamente.

Mas há algo que o sistema ainda não compreendeu completamente.

Cada encaminhamento deixa rastro.
Cada trâmite gera registro.
Cada circulação constrói narrativa.

E quando o cidadão começa a mapear o labirinto, ele deixa de ser peregrino.

Ele vira cartógrafo.

E labirintos cartografados perdem parte do seu poder.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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