Quando o mito começou a rachar

O mito não racha de uma vez.
Ele não explode.
Ele perde aderência.

Nos anos 1990, a estabilização monetária finalmente interrompeu a hiperinflação. O Plano Real, conduzido no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi uma conquista estrutural. Pela primeira vez em décadas, o brasileiro podia fazer conta sem que o valor evaporasse em dias.

A previsibilidade retornou.

Mas algo havia mudado.

A estabilidade veio acompanhada de ajustes fiscais, abertura econômica, reestruturação produtiva. Empresas tornaram-se mais eficientes — e mais enxutas. O emprego formal deixou de ser garantia automática. A ideia de carreira linear começou a enfraquecer.

O mercado de trabalho tornou-se mais competitivo.
A estabilidade passou a exigir qualificação crescente.
O risco individual aumentou.

A geração que acreditou percebeu que o jogo estava mudando.

A promessa não era mais simplesmente crescer junto com o país. Era adaptar-se continuamente. Reinventar-se. Atualizar-se. Tornar-se empregável.

A responsabilidade deslocava-se gradualmente da estrutura para o indivíduo.

Nos anos 2000, um novo ciclo de crescimento reacendeu a sensação de mobilidade. O consumo expandiu-se, o crédito democratizou-se, milhões ascenderam socialmente durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva.

Parecia que o mito poderia se recompor.

Mas o crescimento era novamente dependente de circunstâncias favoráveis. Quando o ciclo desacelerou, as fragilidades reapareceram. Crises políticas e econômicas na década seguinte aprofundaram a polarização, ampliaram o desemprego e corroeram a confiança institucional.

O mito começou a rachar não porque nada tivesse melhorado — mas porque o padrão de oscilação tornou-se evidente.

Avanço.
Estagnação.
Promessa.
Ajuste.
Novo recomeço.

A repetição tornou-se previsível.

E quando a repetição se torna previsível, a crença perde intensidade.

A geração que acreditou começou a perceber que talvez estivesse participando de um ciclo recorrente, não de uma trajetória linear.

Isso produz um efeito psicológico profundo: o futuro deixa de ser destino e passa a ser hipótese.

Não se abandona totalmente a esperança.
Mas ela passa a ser condicional.

É nesse momento que surge uma divisão silenciosa entre gerações.
Os pais ainda falam em estabilidade como horizonte natural.
Os filhos já falam em adaptação como necessidade permanente.

O mito do futuro não desaparece.
Ele muda de tom.

De promessa segura, transforma-se em possibilidade incerta.

E quando a promessa vira possibilidade, a confiança institucional deixa de ser pressuposto e passa a exigir comprovação constante.

Essa é a rachadura.

Ela não destrói o edifício imediatamente.
Mas altera sua estrutura interna.

Porque quando o mito já não sustenta automaticamente a expectativa, o que resta é convivência prolongada com a incerteza.

E incerteza constante cansa.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea O País que Prometia o Futuro mas Nunca o Cumpriu, disponível na Amazon.

Rolar para cima