A humanidade, desde seu início, sempre acreditou que poderia conhecer o futuro através de algum tipo de “técnica”. Seja através de xamãs pré-históricos; os gregos e seus oráculos ou os mesopotâmicos, etruscos e romanos analisando as entranhas de algum pobre animal, o futuro sempre foi fascinante para nós, que achamos que esperá-lo, segundo a segundo, é muito demorado…
Talvez por isso gostemos tanto da ficção científica, como gênero literário ou nas telas de cinema, TV e nos onipresentes smartphones. Uma forma de viajar ao futuro sem sair de casa (rsrs).
Eu, particularmente, sou um amante do gênero: em minha adolescência li todos os livros da space opera Perry Rhodan que foram publicados no Brasil. Ademais, minha mente guiada pelas palavras de Júlio Verne, H. G. Wells, Arthur C. Clarke e Asimov, só para citar os mais conhecidos, viajou até os confins de galáxias estranhas, visitou planetas inóspitos e outros maravilhosos e conheceu alienígenas dos mais diversos tipos.
Tudo, é claro, saído das mentes brilhantes dos humanos, que permanecem ancorados firmemente neste planeta, sem realmente fazerem ideia do que há lá fora, no vasto Universo, apesar dos “arranhões” dados por nossos cientistas no conhecimento cosmológico.
A ficção científica, como tudo que é construto do Homo Sapiens, carrega em seu cerne mais questionamentos existenciais, do que propriamente científicos. Nossas dúvidas com relação à possível extinção ou não da espécie; o destino da sociedade — seja utópica ou distópica; tecnologia mirabolante que resolve problemas atualmente insolúveis.
George Orwell, em sua famosa distopia 1984 (escrita em 1948), não falava do futuro, mas sim do que acontecia em seu tempo na URSS. Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, não fez uma previsão da demografia do futuro. Asimov não discorria como seriam os robôs. Eles se perguntavam na verdade: “nesse passo, onde iremos parar?”
Quando se aborda a ciência e a tecnologia, há mais erros de previsão do que acertos. Isso é normal, pois uma obra de Sci-Fi não é uma previsão científica, é um anseio de quem a escreveu.
Carros voadores e robôs domésticos existiam aos montes nos desenhos dos Jetsons. Humanos viviam na Lua e em Marte na década de 60 e 70 do século XX. Os computadores, chamados de “Cérebros Eletrônicos” eram gigantescos e só países ricos podiam possuí-los (ou algum Império Galático rsrs).
A Inteligência Artificial existia na literatura desde o romance utópico Erewhon de Samuel Butler, publicado em 1872!
Como realidade, a IA é bem mais recente: 1956 como disciplina acadêmica e fins de 2022 como uso amplo (LLMs e ChatGPT).
Hoje, a IA é nossa mais confiável ferramenta para “bisbilhotar” o futuro, ao transformar dados brutos em padrões estatísticos e matemáticos. E, mais uma vez, a ficção científica adiantou-se: em 1942, Isaac Asimov previu a ciência de dados e a modelagem preditiva em larga escala em sua famosa série Fundação.
Entretanto, com o advento da IA, quanto maior nossa capacidade preditiva, mais cresce nossa capacidade de alterar o que tentamos prever. Um dilema essa profecia autorrealizável…
Ao darmos “autoridade” para o que os algoritmos nos fornecem como “previsão”, estamos convencendo a nós mesmos que o “futuro” apresentado pela IA é possivelmente real, o que convenhamos, não passa de um mito.
Como oráculo, o gênero Sci-Fi saiu-se melhor que as “técnicas” de nossos antepassados, mas mesmo assim, ele mostra mais sobre nós do que sobre o que nos rodeia:
Queremos realmente conhecer o futuro ou eliminar a angústia de não sabermos como será?
