Manual do Cidadão Inútil

Há um momento específico na vida cívica de qualquer brasileiro atento em que ocorre a revelação.

Não é quando se descobre a corrupção.
Nem quando se percebe a incompetência.
Muito menos quando se compreende a ineficiência.

A revelação verdadeira acontece quando se percebe que ninguém responde por nada — e que isso não é falha, mas método.

Você escreve a um órgão público.
Ele responde educadamente que não é com ele.
Indica outro.

O outro informa que a competência é de um terceiro.
O terceiro esclarece que a matéria é “complexa” e sugere o primeiro.
Em pouco tempo, você não está mais tratando de um problema.
Está orbitando um sistema gravitacional de irresponsabilidade distribuída.

O Estado moderno não nega respostas.
Isso seria rude.
Ele faz algo muito mais sofisticado: terceiriza a resposta até que ela desapareça.


A elegância da fuga institucional

A resposta institucional contemporânea atingiu um nível de refinamento quase ‘artístico’.

Não se diz “não faremos”.
Diz-se:

“A matéria não se insere no âmbito de atribuições desta unidade.”

Não se diz “não queremos tratar disso”.
Diz-se:

“Sugerimos o encaminhamento ao órgão competente.”

Não se diz “ninguém resolverá”.
Diz-se:

“Seu protocolo foi devidamente registrado.”

É uma linguagem tão educada que chega a ser comovente…
Um balé de gentilezas formais cujo único objetivo é não produzir efeito algum.

O cidadão recebe respostas.
Muitas respostas.
Respostas em abundância.
Respostas tão numerosas que, ao final, percebe que resposta nenhuma foi dada.


A cadeia alimentar da irresponsabilidade

No topo da cadeia alimentar administrativa está o órgão que não decide.
Logo abaixo, o que não executa.
Depois, o que não fiscaliza.
Por fim, o que não sabe.

Todos conectados por protocolos digitais eficientes, formulários elegantes e mensagens automáticas que agradecem o contato.

A arquitetura é perfeita:
cada setor foi desenhado para ter alguma função, mas nunca a função decisiva.

Quando surge um problema real, ele percorre o sistema como uma partícula em um acelerador burocrático — colidindo com setores sucessivos até perder completamente a energia.

No fim do percurso, resta apenas o cidadão.
Exausto.
Protocolado.
Irrelevante.


O nascimento do cidadão inútil

O cidadão inútil não é o que nada faz.
É o que faz tudo:

  • protocola,
  • argumenta,
  • fundamenta,
  • cita leis,
  • apresenta documentos,
  • sugere soluções.

E recebe, em troca, o que o Estado contemporâneo produz com excelência:
encaminhamento.

Encaminhamento é a moeda oficial da administração.
Não resolve, não nega, não assume — apenas desloca.

Depois de algumas voltas completas nesse circuito, o cidadão compreende seu novo estatuto ontológico:
ele existe para registrar demandas que ninguém pretende resolver.

Ele é ouvido, mas não escutado.
Respondido, mas não atendido.
Reconhecido, mas não considerado.

Ele é, em suma, um elemento decorativo do processo democrático — como as plantas de plástico nos corredores de repartições: presentes, visíveis e absolutamente irrelevantes.


A genialidade do sistema

É preciso reconhecer: há genialidade nisso.

O Estado não precisa censurar o cidadão.
Basta responder infinitamente.

Não precisa negar direitos.
Basta diluí-los em competências sobrepostas.

Não precisa silenciar ninguém.
Basta transformar toda voz em protocolo.

O resultado é um modelo administrativo em que a participação cidadã é plenamente garantida — desde que não produza consequências.

Um sistema onde todos podem falar e ninguém precisa agir.


Considerações finais de um cidadão protocolar

Talvez a maior inovação institucional das últimas décadas tenha sido a criação do Estado que responde sem responder.

Um Estado que aprendeu que a melhor forma de evitar conflitos não é resolver problemas, mas dispersá-los.
Um Estado que substituiu a decisão pela circulação.
A responsabilidade pela tramitação.
A ação pela remessa.

E assim seguimos, cidadãos diligentes em um país de respostas impecáveis e soluções inexistentes.

Protocolo após protocolo, encaminhamento após encaminhamento, vamos descobrindo nosso verdadeiro papel na engrenagem pública:

não o de participantes do Estado,
mas o de fornecedores de demanda para um sistema especializado em não atender.

Bem-vindo ao Manual do Cidadão Inútil.
Este é apenas o começo.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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