Há alguns anos tomei uma decisão aparentemente simples: parei de atender chamadas telefônicas.
Quem realmente deseja falar comigo pode enviar uma mensagem pelo WhatsApp ou um e-mail. Meus familiares, quando querem conversar por voz, utilizam chamadas pelo próprio WhatsApp. O telefone celular permanece grande parte do tempo em modo avião, sendo ativado apenas quando preciso acessar a internet fora de casa.
Essa não foi uma escolha motivada por antipatia à tecnologia. Foi uma medida de autoproteção.
Antes dela, meu dia era interrompido por uma sequência interminável de ligações. Telemarketing. Robôs. Chamadas silenciosas. Tentativas de phishing. Golpes que se multiplicavam mais rapidamente do que qualquer lista de bloqueio era capaz de acompanhar.
Fiz tudo o que as autoridades recomendavam. Cadastrei meu número no “Não Me Perturbe”. Bloqueei centenas de números. Ativei filtros contra spam.
Nada resolveu.
Os golpistas simplesmente passaram a utilizar outro número.
Esse detalhe revela uma inversão curiosa. Durante décadas, o telefone representou a possibilidade de comunicação imediata. Hoje, para milhões de pessoas, uma ligação de um número desconhecido desperta desconfiança antes mesmo de despertar curiosidade.
A tecnologia não fracassou por falta de capacidade técnica. Ela fracassou porque o custo da fraude tornou-se ridiculamente baixo, enquanto o custo da defesa foi transferido para o cidadão.
Somos nós que bloqueamos números.
Somos nós que pesquisamos quem ligou.
Somos nós que interrompemos o trabalho para verificar se a chamada era legítima.
Somos nós que convivemos diariamente com a dúvida entre atender um possível cliente ou um possível criminoso.
O mais perverso é que esse fenômeno prejudica principalmente quem utiliza o telefone como instrumento de trabalho. Médicos, eletricistas, advogados, motoristas, pequenos empresários, entregadores e inúmeros profissionais autônomos não podem simplesmente ignorar chamadas desconhecidas. Tornaram-se reféns de um sistema que já não distingue adequadamente quem deseja prestar um serviço de quem pretende aplicar um golpe.
O resultado é um paradoxo tecnológico.
Inventamos uma ferramenta para facilitar a comunicação e acabamos aprendendo a evitá-la.
Talvez o maior sinal do fracasso da telefonia contemporânea não seja o aumento dos golpes, mas a mudança de comportamento de seus usuários. Quando milhões de pessoas preferem trocar uma conversa imediata por uma mensagem assíncrona, não estão apenas mudando de hábito. Estão votando silenciosamente contra um sistema que deixou de merecer confiança.
Nenhuma campanha educativa resolverá esse problema enquanto a infraestrutura continuar permitindo que criminosos se escondam atrás de identidades falsas.
A confiança, uma vez perdida, não retorna por decreto.
Ela precisa ser reconstruída.
Até lá, meu telefone continuará em modo avião.
E talvez essa seja a crítica mais eloquente que um usuário possa fazer ao sistema de telefonia do século XXI: possuir um telefone e escolher, deliberadamente, não utilizá-lo para aquilo que ele foi criado.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
