Manual do Cidadão Inútil — Episódio 15

A burocracia como arte de desaparecer

Durante muito tempo acreditou-se que instituições eram compostas por pessoas.

Havia diretores, chefes, coordenadores, analistas, responsáveis.

Quando algo dava errado, imaginava-se que alguém, em algum lugar da estrutura, poderia explicar o que havia acontecido.

Essa visão também se mostrou ultrapassada.

A burocracia moderna resolveu esse problema com uma solução extremamente elegante:

ninguém mais está exatamente responsável por nada.

Isso não significa que não existam pessoas.

Existem muitas.

Na verdade, às vezes até mais do que o necessário.

Há departamentos.

Há coordenações.

Há setores.

Há unidades especializadas.

Há núcleos de análise.

Há comissões técnicas.

Há grupos de trabalho.

Há equipes responsáveis por acompanhar o trabalho das equipes responsáveis.

Tudo isso existe.

O que desapareceu foi uma figura antiga e inconveniente:

o responsável final.

No passado, decisões tinham assinatura.

Hoje elas têm tramitação.

Isso é muito mais sofisticado.

Quando uma decisão possui uma assinatura, alguém pode ser questionado.

Quando ela possui uma tramitação, o processo é que decidiu.

E processos, como se sabe, não podem ser responsabilizados.

Eles apenas seguem seu curso natural.

A arte burocrática moderna consiste exatamente nisso:

transformar decisões em fluxos.

No fluxo administrativo, cada pessoa executa apenas um pequeno movimento.

Alguém recebe.

Alguém registra.

Alguém analisa.

Alguém encaminha.

Alguém redistribui.

Alguém pede complementação.

Alguém reencaminha.

Alguém arquiva.

Nenhuma dessas etapas, isoladamente, parece conter a decisão.

Mas, curiosamente, a decisão acontece.

Ela simplesmente emerge do percurso.

Se o resultado é absurdo, ninguém exatamente o produziu.

Ele surgiu da interação harmoniosa entre normas, procedimentos, fluxos e sistemas.

Trata-se de um fenômeno administrativo fascinante.

Uma espécie de gravidade burocrática.

As coisas simplesmente caem para algum lugar.

Sem que ninguém precise empurrá-las.

Esse modelo trouxe inúmeras vantagens institucionais.

Primeiro, ele eliminou conflitos pessoais desnecessários.

Antigamente, cidadãos irritados procuravam alguém responsável.

Hoje isso é impossível.

Porque cada servidor pode, com absoluta honestidade, afirmar:

“essa decisão não foi minha”.

E geralmente é verdade.

Ela realmente não foi.

Foi do sistema.

Ou, mais precisamente, foi do caminho que o processo percorreu.

Outra vantagem é a estabilidade administrativa.

Quando ninguém decide sozinho, ninguém pode mudar muita coisa.

Tudo depende de pareceres.

De análises.

De validações.

De autorizações.

De verificações.

De conformidades.

De alinhamentos.

Isso cria uma estrutura extremamente sólida.

Tão sólida que, em muitos casos, nem mesmo a própria instituição consegue alterá-la com facilidade.

Mas talvez a maior inovação da burocracia contemporânea seja sua extraordinária capacidade de evaporação institucional.

Sempre que um problema aparece, algo curioso acontece.

O responsável não está mais naquele setor.

A competência mudou.

A norma foi atualizada.

O processo foi redistribuído.

O sistema foi migrado.

A unidade foi reorganizada.

A equipe foi reestruturada.

E assim, gradualmente, o problema continua existindo…

mas o responsável vai desaparecendo.

Não de forma brusca.

A burocracia evita gestos dramáticos.

O desaparecimento é sempre processual.

Um encaminhamento aqui…

Uma redistribuição ali…

Um ajuste de competência acolá…

E, quando o cidadão finalmente tenta localizar quem decidiu algo, descobre que está diante de um fenômeno curioso:

todos participaram

mas ninguém exatamente decidiu.

Esse é o momento em que o cidadão começa a perceber que entrou em um território administrativo peculiar.

Um lugar onde processos caminham sozinhos.

Decisões surgem espontaneamente.

Responsabilidades evaporam.

E respostas se deslocam continuamente para o setor seguinte.

É um sistema extremamente sofisticado.

Tão sofisticado que, às vezes, até parece que não há ninguém ali.

Mas há.

Claro que há.

Eles apenas dominaram uma habilidade rara na história das instituições humanas:

a arte de estar presente sem jamais poder ser encontrado.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea Manual do Cidadão Inútil: Entre o Balanço do Caos e a Ética da Aparência: o Terror aos Pedaços, disponível na Amazon.

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