Manual do Cidadão Inútil — Episódio 3

Não Me Ligue (Mas Também Não Reclame)

Eu acreditei.

Acreditei que, ao inscrever meu número no “Não Me Ligue”, estava exercendo um direito. Não um favor. Não uma gentileza concedida pelo mercado. Um direito.

A lei prometia silêncio.
Prometia respeito.
Prometia que, se eu dissesse “não”, o sistema ouviria.

Continuei recebendo ligações.

Não uma.
Não duas.
Mas aquela persistência industrial que transforma o telefone em ferramenta de assédio.

Então fiz o que todo manual republicano ensina: denunciei.

Reuni provas.
Anotei horários.
Guardei números.
Formalizei a manifestação.
Redigi com clareza.

Enviei.

E recebi o que todo cidadão responsável recebe: um número de protocolo.

O protocolo é a certidão de nascimento da sua invisibilidade.

Ele diz: “Você existe.”
Mas também diz: “Agora você é estatística.”

Veio a resposta técnica.

Redação polida.
Vocabulário institucional.
Ausência absoluta de consequência.

Não havia “elementos suficientes”.
Talvez a ligação não fosse exatamente ligação.
Talvez a empresa não fosse exatamente empresa.
Talvez o incômodo não fosse exatamente incômodo.

O problema nunca é o fato.
É a classificação do fato.

E assim descobri algo fascinante:
o Estado moderno não ignora você.

Ele processa você.

Processa sua indignação.
Processa sua expectativa.
Processa seu tempo.

E, ao final, arquiva.

Sem conflito.
Sem drama.
Sem escândalo.

Apenas com eficiência administrativa.

O cidadão imagina que a democracia é um diálogo.

Na prática, ela funciona mais como um call center metafísico:

— Digite 1 para registrar sua esperança.
— Digite 2 para aguardar indefinidamente.
— Digite 3 para desistir.

A genialidade do modelo está aqui:
não é preciso calar o cidadão.
Basta envolvê-lo em procedimentos.

O procedimento é a versão civilizada do muro.

Ele não diz “não”.
Ele diz “quase”.

Quase analisado.
Quase providenciado.
Quase resolvido.

O quase é o habitat natural da frustração.

E assim opera a engenharia do cansaço.

O indivíduo trabalha oito, nove, dez horas por dia.
Resolve a vida.
Paga impostos.
E, nas horas vagas, tenta provar que está sendo importunado ilegalmente.

Já a máquina pública não tem horas vagas.
Ela tem fluxos.

Fluxo de entrada.
Fluxo de análise.
Fluxo de arquivamento.

A energia do cidadão é finita.
A da planilha é infinita.

No fim, aprende-se a principal lição do Manual do Cidadão Inútil:

Se você insistir, talvez receba nova resposta.
Mas dificilmente receberá nova realidade.

Não há vilões caricatos.
Não há conspiração cinematográfica.

Há desenho institucional.

Responsabilidades diluídas.
Competências fragmentadas.
Protocolos que substituem decisões.

O sistema não precisa dizer que você é irrelevante.

Ele apenas transforma sua relevância em documento PDF.

O mais curioso é que tudo isso ocorre sob a retórica da proteção ao consumidor, da cidadania ativa, da participação democrática.

É um teatro elegante.

O palco chama-se “controle social”.
O roteiro chama-se “análise técnica”.
O desfecho chama-se “arquivamento”.

E você aplaude — porque ao menos foi respondido.

Talvez o verdadeiro significado contemporâneo de “Não Me Ligue” não seja a proteção contra telemarketing.

Talvez seja a mensagem implícita:

Não nos ligue.
Não nos provoque.
Não espere impacto.

Mas aqui reside o erro estrutural.

O cidadão pode cansar.
Pode suspirar.
Pode até desistir momentaneamente.

Mas quando ele percebe o mecanismo, algo muda.

A indignação é barulhenta.
A lucidez é perigosa.

Porque a lucidez não pede protocolo.
Ela descreve o sistema.

E todo sistema descrito começa a perder sua invisibilidade.

O Manual do Cidadão Inútil não ensina resignação.

Ele ensina anatomia.

E quando você entende a anatomia da inércia, a próxima reclamação já não é ingênua.

Ela é consciente.

E consciência institucionalizada é o início de algo que nenhum protocolo sabe arquivar.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

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