Manual do Cidadão Inútil — Episódio 9

A Ouvidoria Como Ritual de Purificação

Quando o cidadão percorre todos os corredores da administração e ainda insiste em existir, surge uma solução elegante:

A Ouvidoria.

A palavra é bonita.
Evoca escuta.
Sugere sensibilidade.
Transmite a imagem de um Estado que, afinal, se dispõe a ouvir.

Quem poderia ser contra uma ouvidoria?

Se o sistema falhou em algum ponto — se houve demora, desatenção ou descaso — existe ali um espaço quase terapêutico onde o cidadão poderá expor sua experiência.

A Ouvidoria aparece então como instância superior de cuidado institucional.

Um lugar onde, finalmente, alguém escuta.

E de fato escuta.

Protocolos são registrados.
Relatos são acolhidos.
Mensagens são respondidas com cortesia.

O cidadão, já fatigado pelas etapas anteriores, experimenta uma pequena esperança renovada:

“Agora alguém vai ver o problema de fora.”

Mas a função mais sofisticada da ouvidoria raramente é resolver.

É absorver.

Ela atua como um mecanismo de purificação simbólica do sistema.

Toda frustração que escapou dos canais formais encontra ali um recipiente adequado.

O cidadão fala.
Explica.
Detalha.

Às vezes escreve textos longos. Quase um ensaio…
Documenta.
Reconstrói toda a trajetória do problema.

E isso produz um efeito psicológico importante:

Ele sente que foi ouvido.

O que muitas vezes não percebe é que ser ouvido não significa alterar a estrutura que o ouviu.

A ouvidoria funciona como uma espécie de válvula de pressão institucional.

Em vez de conflito direto, há canalização.
Em vez de confronto, há escuta protocolar.

O problema é registrado.

E registro gera estatística.

Estatística gera relatórios.

Relatórios geram indicadores de transparência.

O sistema, portanto, melhora seus números de participação social.

Mas o cidadão que originou o relato frequentemente descobre algo curioso:

Seu caso retorna ao mesmo setor que o produziu.

A ouvidoria encaminha.
O setor responde.
O ciclo se fecha.

Com nova formalidade…

Com nova redação…

Com novo protocolo…

A engenharia é sutil.

A ouvidoria não nega o problema.
Ela o reintroduz no mesmo circuito administrativo que já não o resolveu antes.

Mas agora com a vantagem institucional de que o cidadão foi ouvido.

Há algo quase ritualístico nisso: é como rezar para algum deus inexistente.

O cidadão relata sua experiência como quem faz uma confissão cívica.

A instituição acolhe o relato, absolve-se formalmente e devolve o caso ao fluxo normal.

A ordem administrativa é restaurada.

O conflito foi purificado. Uma benção…

O Manual do Cidadão Inútil ensina então sua sétima lição:

A ouvidoria não é necessariamente um mecanismo de solução.

É um mecanismo de absorção institucional da insatisfação.

Ela transforma indignação em procedimento.

E procedimento raramente produz ruptura.

Mas seria injusto afirmar que a ouvidoria não tem valor algum.

Ela tem.

Seu verdadeiro valor está naquilo que o sistema raramente teme: memória.

Cada manifestação registrada deixa rastro.
Cada rastro compõe histórico.
Cada histórico revela padrões.

A ouvidoria talvez não resolva imediatamente o problema do cidadão.

Mas ela cria algo mais perigoso para estruturas acomodadas:

documentação acumulada de disfunções recorrentes.

E sistemas podem ignorar episódios.

O que raramente conseguem ignorar indefinidamente são padrões.

Talvez por isso o cidadão persistente não esteja apenas reclamando.

Talvez esteja contribuindo, involuntariamente, para um arquivo silencioso daquilo que o sistema prefere não enxergar.


Nota de autoria

Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.

© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea Manual do Cidadão Inútil: Entre o Balanço do Caos e a Ética da Aparência: o Terror aos Pedaços, disponível na Amazon.

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