1. Sofrimento como mercadoria
Há algo profundamente revelador no fato de que nunca se falou tanto em saúde mental e, ao mesmo tempo, nunca se vendeu tanto sofrimento embalado como produto. O cuidado, que deveria ser vínculo, responsabilidade coletiva e dimensão ética da vida social, tornou‑se mercadoria. Não porque o sofrimento seja novo, mas porque o mercado aprendeu a explorá‑lo com precisão cirúrgica.
Vivemos uma época em que características comuns da condição humana — tristeza, angústia, insegurança, timidez, cansaço, luto — passaram a ser tratadas como disfunções. O que antes era reconhecido como parte da experiência de viver foi progressivamente convertido em diagnóstico. Não se trata de negar a existência de sofrimento psíquico real nem a importância de tratamentos sérios, mas de reconhecer um deslocamento perigoso: a patologização da vida comum.
2. Quando tudo vira diagnóstico
Machado de Assis, em O Alienista, já havia intuído o absurdo desse movimento: quando tudo é doença, a normalidade desaparece. O que no século XIX era sátira, hoje se realiza como modelo de negócios. A fronteira entre cuidado e lucro tornou‑se porosa, e a expansão dos diagnósticos passou a responder menos a critérios clínicos e mais a oportunidades de mercado.
A virada simbólica ocorre com a medicalização em larga escala da tristeza. A partir dos anos 1990, com a popularização de antidepressivos como a fluoxetina, consolidou‑se a ideia de que o mal‑estar poderia — e deveria — ser rapidamente corrigido por meios químicos. A promessa implícita não era apenas aliviar o sofrimento, mas adaptar o indivíduo a um mundo que não se dispõe a mudar. A pergunta deixou de ser “por que vivemos assim?” e passou a ser “qual remédio me permite continuar?”.
3. A despolitização do sofrimento
Nesse cenário, o sofrimento perde sua dimensão política. A angústia já não interroga as condições de vida, de trabalho ou de desigualdade; ela é isolada no corpo e na mente do indivíduo. A química substitui a crítica. O tratamento, muitas vezes necessário, passa a funcionar também como instrumento de normalização. Não se cura o mundo; ajusta‑se o sujeito.
4. O coaching como pedagogia da adaptação
É nesse vazio que florescem as indústrias paralelas do cuidado. O coaching talvez seja o exemplo mais eloquente. Originalmente associado a processos específicos de orientação, ele foi progressivamente deturpado até se transformar em solução universal. Há coaching para carreira, relacionamentos, espiritualidade, luto, parentalidade, felicidade e até para suportar ambientes evidentemente adoecedores.
O coaching contemporâneo opera como pedagogia da adaptação. Ele desloca problemas estruturais — precarização do trabalho, competição permanente, insegurança material, ausência de políticas públicas — para o campo da responsabilidade individual. Se você fracassa, falta método. Se adoece, falta mentalidade. Se não suporta, falta resiliência. O sistema desaparece da equação, e o indivíduo passa a carregar sozinho o peso do insuportável.
5. Espiritualidade corporativa e anestesia simbólica
A espiritualidade corporativa atua de forma ainda mais sutil. Sob discursos de propósito, plenitude e equilíbrio interior, ela promete sentido sem conflito. Meditação sem redução de jornada. Mindfulness sem questionamento das metas. Espiritualidade sem ética social. Trata‑se menos de transcendência e mais de gestão simbólica do sofrimento. A dor é reconhecida apenas para ser neutralizada, jamais para produzir transformação.
Não se trata de negar a dimensão espiritual da vida humana, mas de denunciar sua captura. Quando a espiritualidade é mobilizada para manter intactas estruturas injustas, ela deixa de ser caminho ético e se torna instrumento de acomodação. A transcendência vira anestesia.
6. A autoajuda como ideologia
A autoajuda completa esse circuito com eficiência comercial impressionante. Livros, palestras, cursos e vídeos oferecem fórmulas universais para problemas complexos. A promessa é sedutora: basta ajustar atitudes, pensamentos e hábitos, e tudo se resolverá. A pergunta que raramente é feita é simples e incômoda: onde estão os resultados coletivos dessa avalanche de soluções individuais?
A autoajuda funciona como ideologia porque transforma sofrimento social em falha pessoal. Desigualdade vira falta de foco. Exaustão vira má gestão do tempo. Precariedade vira ausência de propósito. Ao responsabilizar integralmente o indivíduo, ela absolve o sistema. É altamente lucrativa, mas politicamente estéril.
7. Terapia, mercado e solidão estrutural
Nesse contexto, até as terapias sérias correm o risco de serem capturadas por uma lógica de mercado. Não por sua natureza, mas pelo lugar que passam a ocupar. Quando a sessão terapêutica se torna o único espaço de elaboração da dor, algo se perdeu. O sofrimento deixa de ser compartilhado, discutido, politizado. Ele é terceirizado.
Não se trata de opor terapia e vínculo social, mas de reconhecer um deslocamento perigoso: a substituição da comunidade pela consulta paga. A solidão estrutural de nosso tempo é tratada individualmente, quando sua origem é coletiva. O que deveria gerar laços produz dependência de serviços. O cuidado vira transação.
As terapias holísticas de prateleira, desprovidas de rigor e responsabilidade, escancaram esse processo. Vendem acolhimento instantâneo, sentido imediato e cura simbólica, sem jamais tocar nas condições materiais que produzem a dor. Funcionam como consumo emocional rápido em uma sociedade que desaprendeu a sustentar o sofrimento em comum.
8. Quem lucra com a dor
Quando cuidar vira negócio, a pergunta central deixa de ser como aliviar a dor e passa a ser quem lucra com ela. O mercado do cuidado não elimina o sofrimento; ele o administra. Não busca transformação social; busca recorrência. O cliente precisa continuar sofrendo — apenas o suficiente para continuar pagando.
O colapso do cuidado não está na existência de terapias, medicamentos ou práticas de escuta, mas na sua captura por uma lógica que separa o indivíduo do mundo que o adoece. O resultado é uma sociedade medicada, orientada, espiritualizada e exausta — mas estruturalmente intocada.
Enquanto o cuidado for tratado como mercadoria e não como responsabilidade coletiva, seguiremos tratando sintomas e preservando causas. E o sofrimento, longe de desaparecer, continuará sendo o combustível silencioso de um mercado que prospera justamente onde o vínculo falha.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
