(ou: breve tratado sobre o diálogo impossível)
Era uma vez um cidadão.
Não um herói, não um revolucionário, tampouco um especialista em labirintos administrativos. Apenas um cidadão — desses que ainda acreditam, com uma ponta de teimosia cívica, que escrever ao Estado pode produzir algum efeito além do silêncio.
Esse cidadão decidiu fazer algo perigoso: pensar.
Observou, com atenção quase científica, que o acesso a um determinado serviço público não era apenas difícil — era estruturalmente confuso. Não havia um canal claro, as orientações se contradiziam, e cada tentativa de contato resultava em um redirecionamento elegante para lugar nenhum.
Não se tratava de um erro. Era um padrão.
E, como todo bom observador, resolveu registrar.
Escreveu então uma manifestação sóbria, educada, quase cirúrgica. Não acusou pessoas, não elevou o tom, não pediu favores. Limitou-se ao essencial: descreveu o funcionamento do sistema e seus efeitos reais sobre o cidadão.
Em outras palavras, fez algo ainda mais perigoso: diagnosticou.
O Estado respondeu.
E aqui começa a parte verdadeiramente interessante…
A resposta chegou com a solenidade de sempre: referências normativas, instruções detalhadas, caminhos formais, nomes de sistemas, links, anexos, e a promessa implícita de que, seguindo corretamente o procedimento, tudo funcionaria como deveria.
Era uma resposta completa.
Exceto por um detalhe.
Ela não respondia à pergunta!
O cidadão havia apontado que o problema era precisamente o excesso de procedimentos, a multiplicidade de canais, a ausência de clareza — e recebeu, como solução, exatamente mais procedimentos, mais canais e mais instruções.
O sistema não discordou.
O sistema não reconheceu.
O sistema simplesmente continuou sendo o que já era.
Talvez porque não pudesse ser outra coisa.
Há algo de profundamente elegante nesse tipo de funcionamento. Não se trata de negar o cidadão — o que poderia gerar conflito, recurso, insistência. Trata-se de algo mais sofisticado: acolher formalmente e neutralizar substancialmente.
O cidadão é ouvido.
Mas não é escutado.
E assim se estabelece o diálogo perfeito: aquele em que ambas as partes participam, mas apenas uma delas fala.
Diante disso, o cidadão tem duas opções.
A primeira é insistir. Aprender os códigos, dominar os sistemas, adaptar sua linguagem ao vocabulário institucional, converter sua crítica em formulário, sua análise em protocolo, sua experiência em número.
Alguns fazem isso. Tornam-se especialistas. Sobrevivem.
A segunda opção é mais simples — e talvez mais radical.
Observar.
Perceber que o problema não está na resposta específica, mas na lógica que a produz. Entender que certos sistemas não falham por acidente, mas por desenho. E que insistir indefinidamente pode significar apenas alimentar o próprio mecanismo que se pretende criticar.
Então o cidadão fecha o sistema.
Não com raiva. Não com resignação.
Mas com uma espécie rara de lucidez tranquila.
E segue a vida…
Porque, em algum momento, ele compreende que há uma diferença fundamental entre viver como cidadão e viver como operador de protocolos.
E decide, silenciosamente, que não nasceu para a segunda função.
O sistema permanece.
Funcionando, respondendo, encaminhando, orientando.
Perfeitamente.
Como sempre fez.
E o cidadão, agora um pouco mais sábio, carrega consigo uma descoberta discreta, porém definitiva:
nem todo diálogo precisa ser continuado.
Especialmente aqueles em que a resposta já estava dada antes mesmo da pergunta existir.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea FIOS DO COLAPSO: Ensaios sobre um Mundo Interligado, disponível na Amazon.
