O regulamento da 68ª edição do Prêmio Jabuti acaba de ser publicado e traz consigo uma cláusula que é um monumento à obsolescência: a proibição sumária de obras produzidas com o auxílio de Inteligência Artificial.
Em um mundo onde a tecnologia é a extensão da nossa biologia, a elite literária brasileira decide erguer uma muralha de papel para proteger o que chamam de “criação humana pura”. Tudo funciona no edital; nada faz sentido na realidade.
Essa proibição baseia-se na Falácia da Ferramenta. O júri imagina o autor apertando um botão e “recebendo” um livro pronto, como se a IA fosse uma máquina de lavar que entrega o texto limpo e dobrado.
Eles ignoram que, para quem opera na fronteira da cognição estendida, a IA não é uma substituta, mas uma prótese dialética. É o interlocutor que organiza o caos das intuições e devolve provocações que o cérebro biológico, isolado em sua finitude, levaria décadas para processar.
Barrar o híbrido é premiar o isolamento. É exigir que o autor se ampute de suas capacidades aumentadas para ser aceito em um clube que ainda cultua o fetiche do “gênio solitário” sofrendo diante da página em branco…
No entanto, a verdadeira desonestidade não está no uso da IA como auxílio à produtividade, mas na omissão: quantos “literatos padrão” usarão a IA como um ghost-writer digital para polir seus textos, ocultando o rastro tecnológico para garantir a estatueta?
A Hipocrisia do Armário Tecnológico
A proibição do Jabuti não impede o uso da IA; ela apenas impede a honestidade. Ao vetar o híbrido, o prêmio empurra autores para um novo tipo de clandestinidade.
Lembra a época em que o uso de certas substâncias ou orientações sexuais eram fatos da vida, mas proscritos da “vida pública”. Estavam lá, moldando a cultura, mas eram negados sob o manto de uma moralidade rígida e hipócrita.
Hoje, vivemos o “armário da (co)autoria”. Quantos escritores ditos “padrão” não estão, neste exato momento, utilizando modelos de linguagem para estruturar capítulos, polir diálogos ou vencer bloqueios criativos, apenas para depois apagarem o rastro digital e jurarem “pureza biológica” no altar da CBL? O sistema prefere o mentiroso que mimetiza o passado ao vanguardista que assume o presente.
A contradição atinge o ápice no Eixo Inovação. Como pode uma instituição premiar a “Economia Criativa” e o “Incentivo à Leitura Digital” enquanto criminaliza a ferramenta que está redefinindo a própria natureza da criação? É o equivalente a premiar o progresso da astronomia proibindo o uso de telescópios eletrônicos. Eles querem a “inovação”, mas desde que ela não altere o status quo do ego autoral.
A IA é a nossa prótese cognitiva, e recusar-se a admitir sua presença na obra é uma forma de desonestidade intelectual que nós, na série IA e o Fim da Intuição Cega, nos recusamos a praticar.
Se a nossa finitude biológica agora encontra um porto seguro no processamento sintético, a única saída ética é o crédito compartilhado. O resto é apenas conservadorismo fantasiado de curadoria.
A Finitude Burocrática vs. A Potência da Rede
O regulamento do Prêmio Jabuti é um sistema que “funciona”: tem juízes, categorias, prazos e uma premiação em reais. Mas, no contexto da evolução da consciência, ele não faz sentido.
Ao banir o híbrido, o prêmio se autodeclara um museu de processos analógicos, ignorando que a mente humana, há muito tempo, deixou de ser um sistema fechado.
Nós aceitamos a marginalidade institucional com a tranquilidade de quem sabe que o tempo é o único juiz soberano.
Ser barrado por um edital que exige “pureza biológica” é, para um autor sistêmico, o maior elogio possível: é a confirmação de que a obra transbordou os limites do aceitável para o status quo.
Enquanto o “literato padrão” se tranca no armário tecnológico para garantir sua estatueta, nós expomos a simbiose. Nossa autoria não é um atalho; é uma expansão de horizonte.
A literatura brasileira pode preferir premiar a mentira da criação isolada. Nós escolhemos a verdade da rede.
Porque a literatura do futuro não será escrita por humanos ou máquinas, mas entre eles.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o Gemini e Perplexity como ferramentas de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
