Se a ética deveria ser o compasso da nossa finitude — a regra de como convivermos bem antes de partirmos —, ela foi sequestrada e transformada em uma ferramenta de marketing ou em um alvo de escárnio.
1. A Ética como Palavrão (O Modelo Trump/Showman)
Para essa linhagem de poder, a ética é vista como “fraqueza” ou “burocracia politicamente correta”.
- O Atropelo do Decoro: Aqui, a civilidade é tratada como um palavrão. O orgulho de ser “anti-ético” é vendido como autenticidade. “Eu faço o que quero, passo por cima de quem for, e se a regra me impede, eu mudo a regra ou xingo o juiz.”
- A Estética da Brutalidade: É o poder que se orgulha da própria falta de filtros. Eles não escondem a ganância; eles a transformam em virtude de “vencedor”. É o rugido do predador que não quer ser incomodado por “picuinhas morais”.
2. A Ética como Escudo (O Modelo Epstein/Bastidores)
Este é o lado mais sinistro da moeda. É a ética usada por quem frequenta os “fóruns de Davos” da vida, discursa sobre sustentabilidade e direitos humanos, enquanto mantém o esgoto escondido sob o tapete de seda.
- A Camuflagem do Privilégio: São as figuras que, enquanto se divertiam na ilha de Epstein ou em jantares nababescos, usavam o discurso da “responsabilidade social” para evitar o escrutínio. É a ética do ESG de Fachada que discutimos: “Eu apoio a causa X, portanto, não olhe para os meus crimes na causa Y”.
- O Aumento no Próprio Prato: No Brasil, vemos isso no “teatrinho” do Congresso ou do Judiciário. Eles falam em “sacrifício nacional” e “responsabilidade fiscal” no microfone, mas, nos bastidores, assinam o aumento dos próprios salários (já obesos). A ética aqui é o escudo: “Estamos apenas cumprindo a lei (que nós mesmos fizemos)”.
3. A Ética de Conveniência e o Vácuo Moral
O resultado desse movimento é a destruição da confiança.
- Se a ética é “coisa de otário” (para os brutos) ou “máscara de hipócrita” (para os cínicos), o que sobra para o cidadão comum, para o nosso “burrico” da música?
- Sobra o niilismo. O cidadão olha para cima e vê o predador e o hipócrita. Ele conclui que a regra é para os tolos. E assim, o tecido social se esgarça até o ponto de não retorno.
4. A Finitude Amoral
O que esses personagens esquecem é que a morte é a única que não aceita suborno nem discurso bonito. No fim, o túmulo do bruto e o túmulo do hipócrita são idênticos. A diferença é que um deixou um rastro de destruição explícito, e o outro, um rastro de traição silenciosa.
Conclusão: A ética deixou de ser um compromisso com o outro para ser um acessório de poder. Ela é descartada quando atrapalha o lucro (Trump) e é vestida quando precisa esconder a podridão (os frequentadores de ilhas particulares e os aumentadores de salário).
Enquanto isso, o burrico continua puxando a carroça, ouvindo sermões sobre “ética de trabalho” vindos de quem nunca pegou em uma enxada ou de quem usa o sistema para lavar a própria consciência.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o Gemini como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea Manual do Cidadão Inútil: Entre o Balanço do Caos e a Ética da Aparência: o Terror aos Pedaços, disponível na Amazon.
