O labirinto sem centro
O cidadão moderno costuma imaginar que o problema da burocracia é encontrar o caminho correto.
Ele acredita que, em algum ponto do sistema, existe um setor responsável.
Um departamento competente.
Uma autoridade capaz de decidir.
Em outras palavras, ele acredita que está diante de um labirinto comum.
Nos labirintos clássicos, a dificuldade está no percurso.
Há corredores.
Há desvios.
Há portas erradas.
Mas existe um centro.
E no centro sempre há alguma coisa importante:
um tesouro,
uma saída,
ou pelo menos um monstro responsável por guardar tudo aquilo.
O cidadão entra no sistema com essa expectativa.
Ele começa a caminhar pelos corredores administrativos.
Primeiro encontra o atendimento inicial.
Depois o setor responsável.
Depois a unidade competente.
Depois a área técnica.
Depois o departamento de análise.
Depois a coordenação responsável pela validação.
Depois a instância responsável pela revisão da análise.
Em algum momento surge também um comitê.
Ou uma comissão.
Ou um grupo técnico que acompanha o trabalho da comissão responsável por avaliar a análise do setor competente.
O cidadão segue avançando.
Cada porta promete ser a correta.
Cada encaminhamento parece aproximá-lo da resposta final.
Durante muito tempo ele continua acreditando que está apenas procurando o caminho certo.
Mas aos poucos uma suspeita começa a surgir.
Os corredores não parecem levar a lugar nenhum.
Eles apenas conduzem a outros corredores.
As portas não parecem proteger uma decisão.
Elas apenas dão acesso a outras portas.
Os setores não parecem resolver o problema.
Eles apenas indicam o próximo setor.
É nesse momento que o cidadão começa a perceber algo perturbador.
Talvez o problema não seja o caminho.
Talvez o problema seja o próprio labirinto.
Nos labirintos antigos havia um centro.
Era por isso que eles existiam.
Eles protegiam algo.
No sistema moderno, porém, o cidadão descobre uma novidade arquitetônica.
O labirinto continua existindo.
Mas o centro desapareceu.
Não há sala final.
Não há responsável supremo.
Não há decisão aguardando no fundo do corredor.
Existe apenas a própria estrutura.
Um conjunto perfeitamente organizado de procedimentos, normas, fluxos, sistemas e encaminhamentos que funcionam com extraordinária eficiência…
para manter o cidadão circulando dentro deles.
Isso explica muitas coisas.
Explica por que o problema nunca encontra exatamente quem o resolva.
Explica por que cada setor parece ter apenas uma parte da resposta.
Explica por que a solução sempre parece estar no próximo corredor.
O labirinto não foi construído para esconder uma resposta.
Ele foi construído para administrar a ausência dela.
Essa é a grande inovação da burocracia contemporânea.
No passado, labirintos protegiam algo valioso.
Hoje eles protegem algo muito mais delicado:
a inexistência de um centro responsável.
E, uma vez compreendida essa arquitetura, muitas experiências administrativas passam a fazer sentido.
Os encaminhamentos intermináveis.
As análises sucessivas.
As revisões que geram novas análises.
As manifestações que geram novas manifestações.
Nada disso é um erro.
É apenas o funcionamento normal de um labirinto que já não precisa de um destino final.
O cidadão entra esperando encontrar alguém.
Sai carregando apenas protocolos.
Mas seria injusto dizer que o sistema não oferece nada em troca.
Ele oferece uma experiência completa.
O cidadão aprende a abrir solicitações.
Aprende a acompanhar processos.
Aprende a interpretar respostas padronizadas.
Aprende a navegar portais eletrônicos.
Aprende, sobretudo, uma lição importante sobre o funcionamento das instituições modernas.
A lição de que o problema raramente é encontrar a porta correta.
O problema é perceber que todas as portas fazem parte do mesmo corredor.
E que, no final dele, não existe um centro esperando pelo cidadão.
Existe apenas o próprio labirinto.
Funcionando perfeitamente.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea Manual do Cidadão Inútil: Entre o Balanço do Caos e a Ética da Aparência: o Terror aos Pedaços, disponível na Amazon.
