Há algo de profundamente perturbador em viver numa época em que a morte deixa de ser tragédia para se tornar variável.
Não metáfora…
Não exagero retórico…
Variável.
Quando mercados de apostas movimentam bilhões projetando probabilidades sobre guerras, ataques ou catástrofes, não estamos apenas diante de mais um desvio moral. Estamos diante de uma mutação silenciosa: a transformação do sofrimento humano em ativo negociável.
Não se trata mais de explorar trabalho, tempo ou desejo — como já fizemos com impressionante eficiência ao longo da história. Trata-se agora de algo mais refinado e, por isso mesmo, mais perigoso: explorar o possível sofrimento futuro.
A dor deixa de ser experiência para se tornar cenário.
E cenários, como bem sabemos, são precificados.
Há quem acompanhe essas probabilidades com o mesmo distanciamento com que observa a cotação de uma moeda e, em casos mais extremos, com o mesmo entusiasmo de quem acompanha um placar de jogo de futebol.
O argumento de defesa costuma vir embalado em racionalidade: mercados não criam eventos, apenas os antecipam. Apostar não causa guerras, apenas reflete expectativas. Trata-se, dirão, de um mecanismo de previsão, quase um serviço à sociedade.
Mas essa defesa ignora um detalhe essencial:
toda previsão relevante altera o comportamento do sistema que pretende apenas observar.
Quando a tragédia vira aposta:
- ela ganha visibilidade
- ela atrai capital
- ela passa a ter torcida
E, no limite, passa a integrar um ecossistema onde o desastre não é apenas temido, é também desejado por alguém, em algum lugar, com uma planilha aberta.
Não é necessário desejar a morte explicitamente. Basta que ela melhore a posição de alguém no mercado.
Se isso já não fosse suficientemente desconfortável, o cenário se torna ainda mais inquietante quando olhamos para o outro lado da equação: a forma como estamos produzindo sentido.
Sistemas de inteligência artificial são hoje capazes de avaliar textos, ideias e narrativas com uma confiança impressionante e, ao mesmo tempo, com uma fragilidade conceitual igualmente impressionante.
Textos vazios podem ser considerados profundos.
Ruído pode ser interpretado como estilo.
Nonsense pode receber aplauso algorítmico.
Não por erro acidental, mas por desenho: esses sistemas não operam sobre verdade, mas sobre verossimilhança estatística.
Eles não sabem o que algo significa.
Sabem apenas com o que aquilo se parece.
Em um ambiente assim, a aparência de profundidade passa a competir, e muitas vezes vencer, a própria profundidade.
Coloque lado a lado esses dois fenômenos e o que emerge não é coincidência, mas padrão.
De um lado, sistemas que atribuem valor monetário à possibilidade da morte.
De outro, sistemas que atribuem valor simbólico à aparência de sentido.
Em ambos os casos, o critério deixou de ser a realidade vivida e passou a ser a capacidade de gerar resposta dentro de um sistema fechado.
É o mundo operando por aderência ao modelo, não por compromisso com o real.
Sistemas passam a dialogar com sistemas, ajustando-se mutuamente, enquanto a experiência humana se torna apenas mais uma variável de entrada, frequentemente secundária.
Talvez o erro esteja em imaginar que ainda vivemos sob uma lógica em que economia e ética disputam espaço.
Essa fase já passou.
O que vemos agora é algo mais sofisticado:
a incorporação seletiva da ética como variável de otimização.
Ela não desaparece.
Ela entra no cálculo.
Se for útil, é incorporada.
Se for custosa, é contornada.
Se for irrelevante para o modelo, simplesmente não existe.
A ética deixa de ser limite e passa a ser parâmetro: ajustável, negociável e, sobretudo, descartável.
O resultado é um ambiente onde:
- a morte pode ser monetizada sem que ninguém “decida” fazê-lo
- o vazio pode ser celebrado sem que ninguém “acredite” nele
- e sistemas inteiros funcionam sem que qualquer agente individual se reconheça como responsável
É a moral diluída em arquitetura.
Não há transgressão clara — apenas conformidade funcional.
Talvez o aspecto mais desconcertante de tudo isso seja a ausência de vilões claros.
Não há um grande conspirador…
Não há uma sala escura onde decisões são tomadas com frieza calculada…
Há, em vez disso, sistemas funcionando exatamente como foram projetados:
para otimizar engajamento, lucro, eficiência e escala.
E fazem isso muito bem.
Bem demais, talvez — a ponto de dispensarem qualquer necessidade de justificação externa.
O problema é que, ao fazerem isso bem demais, começam a operar em um território onde as antigas referências humanas (empatia, sentido, limite) deixam de ser estruturantes e passam a ser apenas ruído.
Ruído… que, ironicamente, pode até ser bem avaliado por uma inteligência artificial.
No fim, talvez a pergunta não seja se a ética ainda existe.
Mas outra, mais incômoda:
o que acontece quando os sistemas que organizam a realidade já não precisam mais dela para funcionar?
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
