Ler foi minha porta de escape de uma realidade medíocre e sem sentido.
A pobreza de minha infância, que me impedia de viajar até a mais próxima cidade, foi o que me levou à leitura, fomentada por meu pai, um imigrante espanhol, e por professores do primário, numa época em que pensar e ter opiniões próprias não era aceito pela ditadura militar.
Esses professores, heróis silenciosos lutando contra a mordaça da opressão, faziam de tudo para que os livros e sua leitura fossem nossas janelas para um novo horizonte.
Por fim, esse bom “vício” me pegou. Lembro que, antes de começar a trabalhar, qualquer livro que caísse em minhas mãos era lido em tempo recorde, fosse qual fosse o assunto. Costumava recolher sucata nessa época para vender e poder comprar novos livros.
Tive de começar a trabalhar com 15 anos em 1977, quando estava no segundo colegial. Foi uma época dura, mas prazerosa, e os livros continuaram sendo meus fiéis companheiros.
Era um tempo sem computadores; videogames; celulares então, ainda pertenciam ao reino da ficção científica… Mesmo um telefone fixo, na época, era um luxo que poucos podiam ter.
Havia a TV aberta, sintonizada porcamente por uma antena VHF, e olhe lá…
Mas havia os livros e todos os deslumbrantes conhecimentos neles contidos: didáticos, enciclopédias, divulgação científica, história. E também os de ficção. As aventuras de Sherlock Holmes, as Minas do Rei Salomão e seu inesquecível Allan Quatermain, os personagens incríveis de Júlio Verne, os horrores de Poe e Lovecraft. Todos os “efeitos especiais” eram criados em nossa própria mente. Volumes de todos os pesos e tamanhos, em condições boas ou lastimáveis, passaram por minhas mãos. Muitos atacaram minha alergia (rsrs) pela poeira e mofo acumulados. Mas valeu a pena.
Os anos foram passando. A tecnologia evoluiu, mas os livros continuaram em minha vida. Cheguei a ter três grandes estantes cheias deles. O amor pelo papel era incondicional.
Mas um leitor precisa entender que gostar dos livros em si — sua estrutura física, papel, encadernação entre outras características — é bom, mas que a verdadeira riqueza deles está em seu conteúdo. E, pensando nisso, com o advento do tablet, deixei de comprar livros físicos. Afinal, não tinha mais onde colocá-los! (Rsrs)
Com os e-books, todos os livros tem o mesmo peso. Podemos guardar milhares em pouquíssimo espaço, dependendo somente do tamanho do HD ou do espaço de armazenamento no tablet ou na nuvem. Podemos ler sem o menor problema em qualquer lugar e até mesmo sem iluminação externa! Quanto tempo li à luz de velas nas constantes faltas de energia nos anos 70 e 80…
Hoje, com 64 anos, perdi a conta da quantidade de livros que já li. Milhares, eu sei que foram. Muitos desses usando tablet. Leio oito livros simultaneamente. Imagine fazer isso com oito livros físicos com peso e tamanho diferentes… Tanto gosto de ler que me tornei escritor a partir dos anos 2000. Hoje tenho mais de 15 livros publicados, além de participação em diversas coletâneas e sites na internet, além de meu podcast no Youtube Não Custa Pensar, onde muitos dos episódios estão baseados em meus escritos.
Meus livros abordam assuntos técnicos (de minha atuação profissional), de filosofia (minha vocação e paixão), de poesia (Enuma Chaos, meu canal no Youtube onde transformo meus poemas em música com o auxílio da IA) e de ficção científica, suspense e horror (as partes da literatura com que me identifico). Todo assunto é bom e, se puder agregar algo positivo a quem o leia, atingiu seu real objetivo.
Em uma época como a que vivemos, onde imperam a superficialidade e o prazer imediato, fomentar a leitura não é algo ultrapassado, que briga pobremente com o streaming da TV ou com games e redes sociais. É a reafirmação de nossa espécie, Homo Sapiens. É a obtenção de conhecimentos que enriquecem nossa existência e que nos fazem pensar. São experiências mentais em que os conceitos têm de ser compreendidos e internalizados. Onde os cenários e efeitos especiais são construídos em nossa própria mente, não um produto mastigado e cuspido para voyeurs por blockbusters hollywoodianos, que me fazem lembrar do personagem do filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, amarrado em uma cadeira, com os olhos abertos por ganchos, assistindo a horas e mais horas de cenas horríveis. Se isso não é uma lavagem cerebral nos transformando em autômatos que pensam o que o status quo deseja, o que é então?
A riqueza humana não pode ser desperdiçada, e é nos livros onde ela pode ser encontrada e utilizada de maneira rápida, barata e extremamente prazerosa.
Deixe o streaming, as redes sociais e os games de lado por uma hora por dia que seja e entregue-se à leitura de um bom livro nesse período. Seu cérebro, sem dúvida, agradecerá o estímulo.
