O cidadão protocolarmente irrelevante
Durante muito tempo acreditou-se que o cidadão participava da vida pública.
Ele podia reclamar, solicitar, recorrer, manifestar-se.
Essa participação era vista como um dos pilares da vida democrática.
Hoje sabemos que essa visão também era um pouco ingênua.
O cidadão continua podendo reclamar.
Ele apenas deixou de ser relevante para o resultado do processo.
Sua função principal tornou-se outra, muito mais importante para o funcionamento do sistema:
produzir protocolo.
O cidadão moderno é, antes de tudo, um gerador de registros administrativos.
Ele abre demandas.
Ele cria números de processo.
Ele alimenta planilhas.
Ele produz estatísticas.
Ele ajuda a demonstrar que o sistema funciona.
Nada disso deve ser subestimado.
Sem cidadãos protocolando coisas, grande parte das estruturas administrativas ficaria sem matéria-prima e, consequentemente, seria inútil.
É graças a eles que relatórios podem afirmar, com orgulho institucional:
“foram registradas 18.742 manifestações de usuários”.
Observe a elegância da frase.
Não diz que os problemas foram resolvidos.
Diz que foram registrados.
E registro, como todos sabem, é a forma mais sofisticada de reconhecimento burocrático.
Quando um cidadão protocola algo, ele entra oficialmente no universo administrativo.
Seu pedido passa a existir.
Seu problema passa a ter um número.
Sua frustração passa a ter prazo.
É um enorme avanço civilizatório.
Antigamente o cidadão era ignorado.
Hoje ele é formalmente considerado irrelevante.
Essa diferença é fundamental.
Porque agora ele pode acompanhar o andamento de sua própria irrelevância.
Existem portais para isso.
Aplicativos.
Centrais de atendimento.
Sistemas eletrônicos com nomes tranquilizadores como:
“acompanhamento de demandas”.
Ao acessar o sistema, o cidadão encontra informações preciosas:
“sua solicitação foi recebida”.
“sua manifestação está em análise”.
“sua demanda foi encaminhada ao setor competente”.
Nada disso resolve o problema.
Mas resolve algo igualmente importante:
a necessidade institucional de demonstrar que algo está acontecendo.
Em alguns casos mais avançados, o sistema oferece inclusive a possibilidade de reabrir a manifestação!
É um recurso fascinante.
O cidadão pode reabrir a demanda.
O sistema pode reabrir o prazo.
O setor pode reabrir a análise.
E assim todos continuam trabalhando arduamente…
para manter o problema exatamente onde ele estava.
Há quem veja nisso um paradoxo.
Não é.
É apenas uma solução administrativa elegante.
Pois permite que o cidadão participe do processo sem correr o risco de interferir no resultado.
Essa inovação também resolveu um antigo dilema institucional.
Durante décadas discutiu-se como conciliar duas coisas:
- ouvir o cidadão
- manter o funcionamento normal do sistema
A resposta foi simples.
Ouça-se o cidadão.
Registre-se sua manifestação.
Agradeça-se a participação.
E prossiga-se exatamente como antes.
Dessa forma, preserva-se o princípio democrático da escuta sem comprometer a estabilidade administrativa.
O cidadão continua falando.
O sistema continua funcionando.
Cada um cumpre seu papel.
O cidadão manifesta.
O sistema protocola.
O cidadão insiste.
O sistema registra.
O cidadão espera.
O sistema arquiva.
No fim, todos saem satisfeitos.
O cidadão porque foi ouvido.
O sistema porque não precisou mudar nada.
E assim nasce uma das figuras mais sofisticadas da administração contemporânea:
o cidadão protocolarmente irrelevante.
Ele fala.
Ele registra.
Ele participa.
Ele acompanha.
Ele recebe respostas.
Ele recebe números de processo.
Ele recebe prazos.
Ele recebe comunicados.
Recebe tudo.
Menos influência real sobre o resultado.
Mas, convenhamos, influência nunca foi o objetivo do protocolo.
O objetivo do protocolo sempre foi outro.
Organizar a inutilidade com método.
Nota de autoria
Este ensaio foi escrito por Henrique Fernandez, que utilizou o ChatGPT como ferramenta de apoio à redação, para explorar alternativas de formulação, ajustar o estilo e testar a organização dos argumentos, jamais como autor independente. As ideias, conceitos e teses defendidas neste texto são de formulação exclusivamente humana, fruto da trajetória intelectual e do projeto teórico do autor sobre poder, ética, império, religião, tecnologia e controle social, e têm como objetivo provocar o pensamento, desmontar narrativas naturalizadas e reafirmar a centralidade de uma ética humanista em sociedades plurais e complexas. A responsabilidade intelectual, política e ética pelo conteúdo apresentado é própria do autor humano, que concebeu os argumentos, selecionou, editou e reorganizou o texto e respondeu por todas as ideias aqui apresentadas.
© Henrique Fernandez. Este ensaio integra a coletânea Manual do Cidadão Inútil: Entre o Balanço do Caos e a Ética da Aparência: o Terror aos Pedaços, disponível na Amazon.
